segunda-feira, 28 de maio de 2012

APROVADA ENTRÂNCIA FINAL PARA CAMPO MOURÃO

O desembargador Jesus Sarrão, presidente da Comissão de Organização e Divisão Judiciárias, informou o deputado federal Rubens Bueno que foi aprovado o pedido de elevação da comarca de Campo Mourão para Entrância Final.
A solicitação foi feita por Bueno, o deputado estadual Douglas Fabrício e lideranças de Campo Mourão e região, em audiência realizada com o presidente do Tribunal Justiça do Paraná, desembargador Miguel Kfouri Neto, no início de abril. Para o desembargador Jesus Sarrão, “é de inteira justiça a decisão, já que o município atende todos os requisitos”.
Antes da aprovação, os parlamentares estiveram em audiência com o corregedor geral do Tribunal de Justiça do Paraná, Noeval de Quadros, para apresentar a demanda. Na ocasião, o desembargador declarou que o parecer para Campo Mourão se tornar entrância final era favorável.
“Fizemos um estudo bem detalhado. Os números do município são semelhantes aos que já atingiram a elevação”. Também participou da reunião o presidente da Acicam (Associação Comercial e Industrial de Campo Mourão), Marcelo Chiroli, que enfatizou a importância de a região ter uma melhor estrutura jurídica.
O deputado estadual Douglas Fabrício afirma que a Entrância Final é uma grande conquista da região de Campo Mourão. “Esta conquista eleva o município a outro nível”, declara.

NOVA MOEDA BRASILEIRA, FRESQUINHA, CHEGOU AGORINHA MESMO...

 

domingo, 27 de maio de 2012

LIXO NAS RUAS, REFLEXO DE UM POVO

Por Luiz Antonio Domingues in Planet Polêmica
Um dos piores costumes que assolam o Brasil, praticamente desde a sua fundação é a mentalidade inacreditável das pessoas em jogar lixo nas ruas. Sempre que vejo um cidadão se livrar de qualquer objeto que tenha à mão, simplesmente jogando-o sobre a calçada ou na rua, fico me perguntando como pode achar normal uma barbaridade desse porte? Muitos usam a cômoda desculpa de que o poder público não providencia lixeiras suficientes ou simplesmente não cuida das poucas disponíveis, que estão quase sempre transbordando, imundas e com o lixo excedente espalhado pelo chão. Sim, muitas vezes isso acontece e acrescento o fato de que a varrição das vias públicas deixa muito a desejar, pelas autoridades municipais. Todavia, ainda penso que se o cidadão não encontra uma lixeira próxima para depositar seu lixo, em algum momento vai encontrar uma disponível ou mesmo utilizar esse serviço num estabelecimento comercial ou mesmo carregar até à sua própria residência (por que não?), dispensando-o no seu lixo doméstico. A desculpa esfarrapada de que um papelzinho de bala, por menor que seja não está causando um dano ambiental, é inadmissível, claro. No Brasil, é comum jogar de tudo nas ruas. E eu questiono: Essas pessoas que agem dessa forma fazem o mesmo dentro de suas residências? A resposta é: Dificilmente, por mais relapsas que sejam, duvido que consigam conviver num ambiente desse nível (claro, existem as excessões, casos patológicos que vemos em reportagens sobre pessoas que acumulam lixo etc.). Fora desse patamar de distúrbio sócio-mental, só posso atribuir esse comportamento à absoluta falta de educação. E dentro desse parâmetro, é óbvia a relação de descaso das pessoas com as cidades em que vivem, estabelecendo uma relação antissocial depreciativa da Res publica. O cidadão que adota tal conduta certamente considera a cidade como um território de ninguém, onde se exime de qualquer responsabilidade perante ela, considerando que não faz parte de sua moradia. Ledo engano! Num país de primeiro mundo, o cidadão aprende desde pequeno que sua cidade é sua casa, como extensão viva do seu Lar e, portanto, adquire uma relação de amor, respeito, e zelo para com ela. No início dos anos setenta, houve uma tentativa de campanha educacional nesse sentido. Publicitários criaram o personagem de desenho animado, "Sugismundo". Com peças divertidas na TV e em tiras de quadrinhos, estimulavam as pessoas a mudarem esse paradigma de descaso. Mas como foi efêmera a abordagem, caiu no esquecimento e os brasileiros de uma forma geral continuaram pautando suas vidas por esse patamar de absoluto descaso com a higiene pública. Particularmente sou contra medidas arbitrárias e ditatoriais por parte das autoridades. Mas alguém tem alguma ideia melhor para mudar a mentalidade desse povo, a não ser pelo caminho árduo das proibições, penalizações e outras medidas invasivas e antipáticas?

ACALMAI-VOS "DON QUIJOTES"


Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 10 de maio de 2012.

Don Quijote de La Mancha
(Miguel de Cervantes Saavedra)

Así, ¡oh Sancho!, que nuestras obras no han de salir del límite que nos tiene puesto la religión cristiana, que profesamos. Hemos de matar en los gigantes a la soberbia; a la envidia, en la generosidad y buen pecho; a la ira, en el reposado continente y quietud del ánimo; a la gula y al sueño, en el poco comer que comemos y en el mucho velar que velamos; a la lujuria y lascivia, en la lealtad que guardamos a las que hemos hecho señoras de nuestros pensamientos; a la pereza, con andar por todas las partes del mundo, buscando las ocasiones que nos puedan hacer y hagan, sobre cristianos, famosos caballeros.
-  General Heleno e os “Rambos” da Reserva
Em novembro de 2008, antes de iniciar minha primeira jornada pelos amazônicos caudais, descendo o Rio Solimões, eu e minha equipe ficamos hospedados no Colégio Militar de Manaus (CMM), comandado, na época, pelo Coronel Abreu. Na oportunidade, o Abreu me convidou para participar de um almoço com a reserva no Clube Militar dos Oficiais.
O ponto alto, como não poderia deixar de ser, foi o discurso do General de Exército Augusto Heleno Ribeiro Pereira, Comandante do Comando Militar da Amazônia. O General Heleno citou as duas estratégias fundamentais adotadas na Amazônia Brasileira: a presença, com suas 28 Organizações Militares, e a dissuasão, baseada na capacidade de combate e intervenção. Depois de discorrer sobre diversos aspectos táticos e estratégicos falou, também, da possibilidade de intervenção estrangeira, afirmando que a propalada “teoria intervencionista” justificava todo e qualquer tipo de ação militar pelo mundo.
Antes de encerrar sua fala o General fez duras críticas a certos companheiros da reserva que se transformaram em verdadeiros “Rambos da oratória”. Estes mesmos militares, quando na ativa, nada fizeram que pudesse comprometê-los e, agora, entrincheirados na reserva, passaram a cobrar atitudes mais drásticas dos seu Chefes Militares. No final de sua locução o General Heleno foi aplaudido entusiasticamente por todos.
-  Críticas Cíclicas
O General Enzo Martins Peri, Comandante do Exército, tem recebido, por parte de alguns de nossos companheiros de Arma, duras e infundadas críticas a respeito de sua atitude diante de certos temas atinentes à Força Terrestre e a assuntos que afligem seus integrantes. Hoje, como ontem, esses mesmos “web combatentes” valem-se da proteção da lei para cobrar de seus líderes atitudes que jamais teriam pensado levar avante quando estavam na ativa.
Recebi, através de meu Mestre e Amigo, Cel Gelio Fregapani, algumas importantes e lúcidas considerações escritas pelo Coronel José Gobbo Ferreira que faço questão de repassar em consideração à figura inatacável de nosso Comandante do Exército.
-  Salvo Melhor Juízo (SMJ)
Fonte: Coronel José Gobbo Ferreira
Meu querido Primeiro Chefe:
Estou muito preocupado com o rumo que as coisas estão tomando no Exército. Tenho o mais profundo respeito pelas opiniões de todos. Absolutamente todos!!! Mas preciso expressar a minha, acompanhada de um humilde “salvo melhor juízo” (smj).
Alguns companheiros, imbuídos das melhores intenções e com a alma militar sangrando (como a minha), vem sendo implacáveis nas condenações às atitudes de nossos Chefes, em particular o General Enzo, encontrando em tudo o que ele faz, ou deixa de fazer, um motivo para criticar acerbamente seu comportamento.
Esse é um erro que não se justifica em combatentes que somos. O inimigo é outro. Não é o Comandante da Força. Por razões absolutamente fora de nosso alcance, a Nação aproou para a esquerda. O povo, em sua maior parte ignorante, imediatista e à venda por baixo preço, escolheu esse regime que aí está, que não é aquele que desejaríamos. Não há como negar isso e nem como mudar esse quadro antes de outra eleição, a menos que haja um golpe de estado e uma ruptura constitucional, o que também não desejamos, como já exprimiu o ilustre General Valdésio.
Assim, para usar uma figura que qualquer guerreiro entenderia, as pessoas em cargos de decisão que pensem como nós, incluindo aí nosso Comandante, são como combatentes operando em território inimigo. De nada adianta para eles se arvorarem em machões e abrirem fogo abertamente contra qualquer alvo que seja. Seriam abatidos na hora. Se o Comandante bater de frente com o establishment será destituído imediatamente, “sans autre forme de procès”. Isso é evidente. E entraria um outro, que viveria os mesmos dilemas, e “la nave va”.
Exaltar a eficiência do Exército na luta contra o comunismo, como anfitrião, em um discurso na presença do Comandante Supremo, que é comunista, me parece uma falta imperdoável de tato, uma agressão descabida e um suicídio inútil, smj.
O guerreiro perdido em território inimigo precisa agir com toda precaução. Obter pequenos progressos paulatinamente. Conquistar pouco a pouco habitantes locais que lhe deem abrigo e comida. E ir se aproximando de seu objetivo, sempre homeopaticamente e com extremo cuidado. Qualquer descuido é fatal. Essa é uma situação extremamente perigosa, desgastante e estressante.
Não gostaria jamais de estar na situação do General Enzo. Tenho a mais absoluta certeza de que ele luta pelo Exército dentro das limitações impostas pela situação tática e estratégica. Submete-se a constrangimentos que não precisaria mais sofrer e suporta pressões angustiantes das quais estaria livre na tranquilidade da Reserva e, supremo sacrifício, recebe ordens de Celso Amorim e tem que tolerar a presença de José Genuíno, tudo para cumprir a missão sagrada de servir à Força e evitar, na medida de suas possibilidades, que mal maior possa vir a acontecer.
Cada um pode bem imaginar a seu modo, mas ninguém sabe exatamente o que se passa nos corredores palacianos, e condenar o Chefe sem esse conhecimento é, no mínimo, uma flagrante injustiça, à qual jamais me associarei.
O momento é de cerrar fileiras em torno de nossos Chefes e de nos unirmos na reserva, fazendo nossa parte. Que essa parte não se limite a trocar entre nós e-mails candentes e enfurecidos, mas sim que procuremos encontrar maneiras de levar nossa voz além de nossas fronteiras. Aproveitar oportunidades para discutir nossas posições com formadores de opinião externos ao nosso meio, como fizeram os Generais Heleno, Rocha Paiva e Felício. Chamá-los para a discussão em campo aberto. Conquistar corações e mentes no meio civil, em particular entre a juventude, obtendo assim uma base de apoio cada vez mais sólida para nossas manobras.
Nunca me esquecerei do CICAO (Cadete Ides Comandar, Aprendei a Obedecer), no frontispício do prédio principal de nosso ninho. O fato de que não vamos mais comandar, não nos desonera do dever de obedecer. Os tempos de guerra em que o inimigo está vencendo são duros, e impõem sofrimentos e desalento. Mas temos que buscar dentro de nós a endurance moral para suportar a pressão sem dissensões, unidos na defesa de nossos ideais, cada um confiando em que o outro está dando o melhor de si no combate que representa o derradeiro esforço na defesa da liberdade em nosso país. Todas as demais instituições já estão “dominadas” pelo inimigo. Não podemos nos dar ao luxo de perder eficácia praticando o tiro amigo.
Divulgue minhas ideias da maneira que achar conveniente e se achar conveniente. Para seus destinatários, permita que acrescente mais um parágrafo:
Meus caríssimos irmãos de armas. Que não turbe vossas consciências o fato de que essas palavras venham de alguém tão pouco qualificado para escrevê-las. Elas não constituem reproche nem crítica, mas apenas considerações sinceras oriundas de um jovem, mas cauteloso guerreiro com 71 anos de idade. Respeitosamente apresento armas para todos que se engajam nessa luta, qualquer que tenha sido até agora sua maneira de fazê-lo. Convoco os até então indiferentes para a luta. E vamos reagrupar o dispositivo, sob as vistas e fogos do inimigo, mas unidos e coesos em torno do Chefe, que há de nos mostrar o caminho do dever. Que a Reserva seja para ele a reserva com que contam os Generais no campo de batalha, pronta a intervir, no momento certo, no lugar ideal e com o entusiasmo e poder de fogo necessários e suficientes para conduzir à vitória. Essa é minha opinião, salvo melhor juízo.
Um forte abraço fraterno.
-    Livro
O livro “Desafiando o Rio-Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre, na Livraria EDIPUCRS – PUCRS, na rede da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br) e na AACV – Colégio Militar de Porto Alegre.
Para visualizar, parcialmente, o livro acesse o link:
Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA); Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS); Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional.

AMOR VERDADEIRO



Por alguma declaração ou atitude de um conhecido, amigo ou parente, apesar de aparentemente sequer a havermos notado, nossa relação com essa pessoa é um pouco ou totalmente alterada e dela nos afastamos ou aproximamos mais.
Iniciam-se assim as maiores ou menores afinidades, os afastamentos, as amizades e muitas vezes, quando menos esperamos ou mesmo sem entender o motivo pelo qual isso aconteceu, nossos sentimentos por uma pessoa são alterados.
Podemos sentir algum tipo de repulsa, carinho, amizade, atração, paixão, mas muito raramente sentiremos amor.
Na juventude surgem as primeiras pessoas que mesmo quando vistas pela primeira vez, nos provocam verdadeiras paixões e, no decorrer de nossas vidas, pessoas que julgávamos próximas se afastam e outras com quem tínhamos pouco contato se aproximam, tornando-se amigas.
Algumas que estavam ao lado como colegas de estudos, trabalho ou simplesmente conhecidas, podem passar a ocupar um espaço maior de tempo em nossos pensamentos e em diversos momentos delas nos lembrarmos com uma frequência muito maior do que antes, abrindo a possibilidade de com essas podermos experimentar outro tipo de relacionamento.
Por caminhos inesperados, diferentes e normalmente muito prazeirosos, os sentimentos nos aproximam de pessoas por quem não imaginávamos poder sentir carinho ou amizade, mas por algum motivo percebemos que são especiais, raras, que chegaram em nossa vida para ficar, tornando-se aquelas amigas que mesmo quando distantes jamais se ausentarão.
Em outras oportunidades somos por eles levados a nos apaixonar, viver momentos de alegrias, prazeres e até a pensar que estamos amando, o que normalmente não é verdadeiro.
O amor pleno, assim como só passamos a entendê-lo na maturidade, que envolve dedicação, concessão, carinho, amizade e cumplicidade, repleto de momentos felizes e inesquecíveis, é raro e provavelmente só ocorrerá uma única vez durante nossa vida.
Mas apesar de não existirem manuais de bom funcionamento ou garantias, para que possamos realmente viver um amor quando ele ocorre, algumas regras básicas precisam ser seguidas, como a não permissão de opiniões e interferências provenientes de amigos, parentes ou filhos - que poderão causar momentos tristes, doloridos, de constrangimento ou até o rompimento do casal -, pois nenhuma dessas pessoas, por mais importantes que sejam na vida de cada um, jamais suprirão a falta que um companheiro que nos ame fará em nossa vida e na velhice.
Entretanto, se alguns momentos tristes, choros, dores, palavras não ditas e sentimentos não demonstrados ocorrerem por motivos exclusivos dos dois, serão facilmente superadas pela vontade de um fazer o outro feliz, pois mesmo sendo incapazes de mudar, quando realmente amamos, sempre podemos melhorar.
E quando seu par demonstra que pretende ser uma pessoa melhor, continuar a seu lado e envelhecer com você, é uma demonstração inequívoca de que entre os dois já existem coisas mais importantes para serem avaliadas, levadas em consideração, do que os tropeços e erros que são facilmente perdoados e quando se ama verdadeiramente, novas chances sempre podem ser concedidas.
Não serão as conversas de terceiros, pequenos comportamentos dos quais discorda, os incidentes ou acidentes ocorridos durante a vida, que abalarão um verdadeiro e inesquecível amor.
Siga seu coração, seu instinto, e não permita que o amor passe sem vivê-lo plenamente.
*João Bosco Leal-Jornalista, escritor e produtor rural.
Lembranças do passado
Por João Bosco Leal

Residindo perto do Pantanal Sul Mato Grossense, de belezas naturais deslumbrantes e muitos animais silvestres, resolvi convidar uma amiga de juventude para passar um feriado prolongado em minha casa e assim nos reveríamos e ela conheceria o pantanal.
Pretendia mostrar locais que conheço sem nenhuma programação previamente agendada, passeando, parando, tirando fotos, mostrando o que lhe era desconhecido, sem nenhum compromisso de horários, mas como chovia e fazia frio quando a aeronave que a trazia pousou, percebi que a programação teria que ser alterada.
Como duas pessoas que não se viam ou tiveram qualquer tipo de contato há trinta e sete anos, fomos almoçar e começar a conversar sobre o que ocorreu em nossas vidas nesse período e também sobre o que ela gostaria de fazer já que com aquele tempo a programação anterior não seria aconselhável.
Durante essa conversa, por algumas declarações e comportamentos, já percebi que meu convite talvez não tivesse sido uma boa ideia. Notei que havíamos vivido em mundos e culturas diferentes por um período demasiado longo, o que tinha nos transformado em duas pessoas com uma quantidade enorme de diferenças.
Morando só e já próximo dos sessenta, nada mais lógico e esperado que possuísse algumas ou muitas manias, mas tentei colocar minha convidada muito à vontade, mostrando-lhe seus aposentos e onde encontraria tudo o que pudesse necessitar, desde alimentos, bebidas, pratos, talheres e como funcionava a máquina de café.
Por simples bom senso e educação que se espera de quem possui um grau cultural elevado, ou até mesmo por conhecimento prático adquirido durante a vida, imaginei que alguns comportamentos não ocorreriam por serem inesperados para quem se hospeda em casa alheia, independentemente das manias adquiridas por quem está acostumado a viver só como eu.
Morando só no interior do Paraná logo notei que acostumada a viver em casa, não tinha noção do que seria viver em um prédio de apartamentos, mas diversas atitudes comportamentais por mim inesperadas confirmavam minha primeira impressão: éramos pessoas totalmente desconhecidas.
Como o clima frio e chuvoso não a estimulavam sequer a sair do quarto por longos períodos, solicitei a presença de outra amiga e demos algumas voltas pela cidade, visitando locais interessantes e pontos turísticos, mas foi tudo o que conseguimos, pois no dia seguinte o tempo melhorou e o sol voltou a brilhar, mas ela não se interessou pelo passeio turístico que eu havia programado para o Pantanal alegando que preferia permanecer quieta, dentro de casa.
Pensei então sobre todo o período que estivemos longe, morando em ruas, cidades e estados diferentes, estudando em escolas e cursos, tendo amigos e relacionamentos mais ou menos profundos ou duradouros, com idades e em épocas distintas.
Com todas essas variações de estilos, meios e modos de vida, realmente não poderíamos mais ser o que éramos e pensar ou agir como costumávamos fazer.
Uma pena, pois a intenção era a melhor possível e ao invés de reaproximar, certamente acabou afastando mais ainda duas pessoas que já não se viam há décadas, mas que mantinham lembranças de um tempo diferente, quando éramos jovens e que infelizmente nunca voltará.
Tentar reviver o passado pode fazer perder lembranças que na mente se mantinham bonitas e por isso lá deveriam permanecer.
*João Bosco Leal   Jornalista, escritor e produtor rural.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

MORREU O MAESTRO LINCOLN DA BANDA MUNICIPAL DE CAMPO MOURÃO

Nascido no dia 2 de abril de 1931 em Iepê, interior de São Paulo, Luiz Vieira de Moura assumiu o comando da Banda em 1979, a convite do então prefeito Augustinho Vecchi. A Banda passou por várias dificuldades e ele foi um dos que mais lutaram para preservá-la.
Maestro Lincoln, começou a tocar ainda aos 10 anos quando estudava o primário, e, atuou como músico por mais de 70 anos. Quando jovem também exerceu a função de protético e dentista prático até 1958 em Itaguagé no Paraná onde foi eleito vereador para o mandato de 1954 a 1959.
Seu primeiro trabalho como maestro foi em Cascavel, regendo a Banda da Policia Militar, de onde saiu para assumir a Banda Municipal de Campo Mourão.
Ele deixa sete filhos, entre eles Luiz Cláudio Vieira, ex-locutor da Rádio Rural FM e agora funcionário da Santa Casa.
No começo de julho do ano passado o maestro sofreu derrame e ficou internado na UTI. Poucos dias antes, 22 de junho, Luiz Vieira de Moura havia perdido a esposa Ana Galvão Vieira, que faleceu aos 74 anos de idade.
O corpo do Maestro Lincoln da Banda Municipal foi sepultado na tarde de hoje no Cemitério Municipal “São Judas Tadeu”.

domingo, 6 de maio de 2012

LAGUNA DOS PATOS

Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 04 de maio de 2012.
Os Lusíadas
(Luís Vaz de Camões)
Canto II – 20 
Já na água erguendo vão, com grande pressa,
Com as argênteas caudas, branca escuma;
Cloto eo’o peito corta e atravessa
Com mais furor o Mar do que costuma.
Salta Nise, Nerine se arremessa,
Por cima da água crespa, em força suma.
Abrem caminho as ondas encurvadas,
De temor das Nereidas apressadas.

A origem do nome da Laguna dos Patos é, por demais, contraditória. A literatura do século XVI vincula o seu nome às aves palmípedes e a partir do século XVII faz alusão aos Índios Patos, como eram chamados os Carijós que povoavam a zona litorânea.
Nas minhas Travessias pela Laguna dos Patos tenho encontrado diversos Capororocas, Patos-do-mato (também conhecido como pato-crioulo, pato-bravo, cairina, pato-argentino, pato-selvagem ou pato-mudo), biguás (também chamado corvo-marinho, pata-d'água, biguaúna, imbiuá, mergulhão e miuá) e outros tantos palmípedes que povoam nossas lagunas litorâneas e que podem ter sido os responsáveis pelo batismo da Laguna dos Patos.
Capororoca 
(Coscoroba coscoroba): possui plumagem branca com a ponta das asas negras, o bico e os pés são vermelhos. O capororoca parece mais um ganso, mas os biólogos o classificam como cisne tendo em vista seu grande porte. Encontrados desde a Patagônia até o Uruguai, Paraguai e Brasil, onde pequenos bandos habitam lagunas, pântanos e banhados próximos ao litoral Gaúcho.
Pato-do-mato 
(Cairina moschata): vive em pequenos grupos, de até uma dúzia. Pousa sobre árvores desfolhadas para observar os arredores, descansar ou dormir. Faz seus ninhos nos ocos das árvores e em palmeiras mortas próximas à água. Raramente avistado nas proximidades da Laguna. 
Biguás  
(Phalacrocorax brasilianus): 
mergulha para pescar e para facilitar a imersão elimina o ar que fica normalmente entre as penas. É visto em grandes bandos voando rente à água, em formação em “V”, sendo essas revoadas semelhantes à dos patos, fazendo com que sejam confundidos como tais. 
Não creio que tenha sido uma determinada espécie o que mais chamou a atenção dos cronistas pretéritos para nominar nossos acidentes geográficos e sim a abundância destas aves. A narrativa de Francisco Lopez de Camará mencionando “patos negros sin pluma, y con el pico curvo”, nos leva a considerar o biguá que possui o bico encurvado e que depois de mergulhar parece mesmo não possuir penas, além disso, até hoje os intermináveis e numerosos bandos impressionam a quem os avista.
Outros pesquisadores, no entanto, defendem a tese de que o nome da Laguna teria sua origem nos tais Índios Patos, o que acho menos plausível.
O biógrafo, historiador, ensaísta, lexicógrafo, romancista e professor brasileiro Afonso d’Escragnolle Taunay, nascido em Nossa Senhora do Desterro (Florianópolis), SC, em 11 de julho de 1876 narra na sua “História Geral Bandeiras Paulistas”, editada em 1928, pela Typographia Ideal, que:
Um grupo de Índios Carijós que vivia na região da Laguna, em SC, conhecidos no Brasil como Patos.
O historiador brasileiro Capitão-tenente Lucas Alexandre Boiteux nascido em Nova Trento, SC, no dia 23 de outubro de 1881, membro da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Catarinense de Letras, faz um relato esclarecedor nas suas “Notas para a História Catarinense”, editado em 1912, pela Livraria Moderna, que:
A grande tribo dos Carijós limitava-se ao Nordeste com os Tupinikins, ao Norte com os Guayanás, a Noroeste com os Cai-acangs, a Oeste com os Guandos, e finalmente ao Sul com os Tapes. Querem alguns historiadores que a nossa costa tivesse sido também habitada por uma tribo chamada – Patos. Os nossos cronistas antigos não se referem a ela. A confusão provém de terem sido denominados - dos Patos - a Bahia e Porto de Santa Catarina, que lá habitavam, diziam - os Índios dos Patos, e daí os Índios Patos, os Patos, etc. O Padre Simão de Vasconcellos nos explica que esta tribo era a mesma dos Carijós e que assim a denominavam porque habitavam a costa.
Sabe-se, através de sítios arqueológicos e sambaquis, que os Índios Carijós, do grupo Tupi-guarani, habitavam o litoral Sul do país há aproximadamente 4.000 anos, e que alguns de seus membros domesticavam o Pato-do-mato, o que poderia ter levado os europeus a denominá-los de Índios dos Patos. O fato de alguns pesquisadores, menos informados, vincularem ao nome de Patos o fato destes, supostamente, possuírem pés grandes tem uma explicação lógica tendo em vista a confusão entre Patos e Patagones (Patagões). Vamos rememorar.
Fernão de Magalhães, servindo ao Rei de Espanha, ao realizar a primeira viagem de circum-navegação pela Terra, foi o primeiro europeu a atravessar o Estreito de Magalhães, batizado com o seu nome, e a navegar o Oceano Pacífico. Ao desembarcar no extremo Sul da América Latina, Magalhães encontrou a região povoada pelos “Tehuelches”, caçadores nômades que utilizavam couros de Guanaco para se protegerem do frio. Os Tehuelches cobriam os pés com as mesmas peles aparentando ter os pés grandes. Como a palavra “pata”, significa “perna” ou mesmo “”, no espanhol coloquial, esses nativos de grandes “patas” foram denominados, então, de Patagões e sua região de Patagônia.
Guanaco (Lama guanicoe): mamífero ruminante semelhante às lhamas (Lama glama). Alcança cerca de 1 a 1,25m de altura nas espáduas. O pelo é longo e macio, castanho-avermelhado em cima, e branco embaixo. Os guanacos vivem em grupos nas montanhas e planícies e, outrora vagavam em grandes bandos. O lhama e a alpaca (Vicugna pacos) da América do Sul são descendentes do guanaco. 
O marinheiro, geógrafo e escritor italiano Antonio Pigafetta nascido em Vicenza, Itália, em 1491, pagou expressiva quantia para acompanhar Fernão de Magalhães em sua viagem. Pigafetta foi o cronista da viagem, e um dos dezoito homens que logrou retornar à Espanha, com vida, em 1522, depois de completar a circum-navegação, sob o comando de Juan Sebastián Elcano, após a morte de Magalhães. Pigafetta assim mencionou seu encontro com os nativos da patagônia: 
Um dia, de repente viu um homem nu, de estatura gigantesca, na margem do porto, dançando, cantando, e jogando terra sobre a cabeça. O Comandante-geral enviou um de nossos homens até o gigante, para que ele pudesse interpretar nossas ações como um sinal de paz. Tendo feito isso, o homem levou o gigante para uma ilhota onde o Capitão-general estava esperando. Quando o gigante se aproximou do Capitão-geral, ele maravilhou-se, e fez sinais com um dedo levantado para cima, acreditando que o mesmo tinha vindo do céu. Ele era tão alto que um de nossos homens, de estatura mediana, só lhe atingia a cintura, e ele era bem proporcionado... Em 1766, um boato vazou ao retornar à Grã-Bretanha que a tripulação do HMS Dolphin, capitaneada por Commodore John Byron, tinha visto uma tribo de nativos da Patagônia com nove pés de altura (2,74m), quando passaram por lá em sua circunavegação do globo. No entanto, quando uma recém-editada revisão dessa viagem saiu em 1773, os patagônios foram registrados como sendo seis pés e 6 polegadas de altura (1,98m); enquanto a estatura média de um europeu na época era de 1,68m.
O médico e historiador brasileiro Alexandre José de Mello Moraes, nascido em Maceió, AL, no dia 23 de julho de 1816, relatou na sua “Corographia Histórica, chronographica, genealógica, nobiliária, e política do Império do Brazil”, editada pela Typographia Americana, em 1858, que: 
(...) Magalhães dera o nome de Patagões, aos habitantes das terras do Sul da América conhecidos pelos outros gentios pelo nome de Morcas, por terem os pés como patos, e estarem envolvidos em pele de um animal, que parecia ter cabeça e orelhas grandes, como mula, com corpo de camelo, e cauda de cavalo; e acrescenta mais, que os Patagões, que estiveram a bordo eram gigantes, e que um homem de estatura ordinária chegava-lhe com a cabeça à cintura. Tudo isto é completamente falso, ou exagerado. (...) a pele de animal com que se cobria o Patagônio era de Lhamas do Peru ou do Chile, e das Cordilheiras do Estreito de Magalhães; e os tais gigantes, nunca tiveram a estatura notada por Pigafetta: mas, todavia são homens mui altos, chegando a seis pés e três polegadas inglesas o mais robusto e corpulento, que se tem encontrado nestes últimos tempos; e é provável, que desde o ano de 1518 ou 1519 até agora, esta raça de homens da natureza não tenha degenerado.
A revista do Museu Paulista publicou interessante artigo a respeito do tema em questão em 1907. 
REVISTA DO MUSEU PAULISTA
 Publicada por Rodolpho von Ihering
Diretor Interino do Museu Paulista 
S. PAULO
Typ. Cardozo, Filho & Ciª
35, Rua Direita, 35
1907

Os Índios Patos e o nome da Lagoa dos Patos
pelo Dr. Hermann von Ihering

Tendo vivido por muitos anos à margem da Lagoa dos Patos e publicado sobre ela dois estudos, liguei interesse especial ao nome desta Lagoa e por fim adotei a opinião de que este nome não lhe provinha das aves aquáticas denominadas “Patos”, mas de uma tribo de Índios, aliás, pouco conhecida, dos Patos. Esta opinião foi combatida por Alfredo F. Rodrigues no seu artigo “O nome de Lagoa dos Patos” declarando ele imaginária a dita tribo dos Patos. 
Pretendendo em seguida tratar por extenso do assunto, reproduzo aqui a maior parte do referido artigo do Snr. Alfredo F. Rodrigues. 
Com referência à ideia de que a Lagoa dos Patos tomou o nome de uma tribo de Índios, que habitara em suas margens, ele diz o seguinte:
O erro data de Ayres de Casal, ou pelo menos foi ele que o vulgarizou, pela notoriedade que alcançou a sua “Chorographia Brazileira”. Diz ele que: a Lagoa dos Patos tomou o nome de uma nação hoje desconhecida.
Referindo-se ao canal entre a ilha de Santa Catarina e o continente, diz também:
Rio dos Patos lhe chamavam os primeiros descobridores, porque servia de limite entre os Índios deste nome que se estendiam até S. Pedro e os Carijós para o Norte até Cananéia.
Contra esta afirmativa foi o primeiro a protestar o Visconde de S. Leopoldo, nos “Annaes da Província de S. Pedro”, citando a opinião do Padre Simão de Vasconcellos:
A origem deste apelido esquadrinhou e nos transmitiu o Padre Simão de Vasconcellos, que procedeu de uma armada espanhola, que, em viagem para o Rio da Prata, 1554, obrigada por temporais, arribou à deserta ilha denominada ao depois de Santa Catarina e deixara ali alguns patos que, procriando maravilhosamente, se foram espalhando em copiosíssimos bandos por todo aquele litoral; e foi a causa donde a lagoa toda aquela terra se chamavam dos Patos e até hoje lhes dura este nome.
Em nota acrescenta ainda
Nestes pontos de pura tradição, inclino-me a seguir antes o Padre Vasconcellos, que, provincial e cronista da Companhia de Jesus no Brasil, escrevendo na Bahia, pelos anos de 1663, viveu mais próximo aos fatos e teve mais proporções de averiguá-los do que o Padre Casal na “Chorographia Brasileira” que, aliás, merecendo grande conceito no que escreveu das Províncias do Norte, que examinou ocularmente, não passando do Rio de Janeiro para o Sul, escreveu por meras informações; por isso não é muito que claudicasse a ponto de adicionar Províncias ao Império do Brasil que não lhe pertenciam, e entre outras cousas mais, dando existência a uma Nação dos Patos de que não se encontram os mínimos vestígios. Vide a enumeração que faz das Nações Índias o mesmo Padre Vasconcellos nas Notícias antecedentes das cousas do Brasil, n° 151 e 152.
Aesma versão se encontra no Santuário Mariano, crônica escrita pelos jesuítas, cujo primeiro volume se publicou em 1707, aparecendo o último em 1723: 
Ilha de Santa Catarina — Patos — Cobrem estas aves as praias e terras da beira-mar, por distância de 50 léguas e mais. São os mesmos da Europa. Ali os soltaram uns espanhóis que faziam viagem para o Rio da Prata em 1554.
Enganaram-se na data, porém, tanto o Visconde de S. Leopoldo como os dois cronistas jesuítas, pois que aí já existiam patos muitos anos antes, sendo conhecidos por este nome diversos lugares na costa desde Santa Catarina até o Rio da Prata.
De fato, João Dias de Solis, chegando, em princípios de 1516, à Ilha de Santa Catarina, deu-lhe o nome de Ilha dos Patos; e na embocadura do Rio da Prata, denominou Rio dos Patos a um arroio entre 35° e 34 1/3°. Não existe o roteiro da viagem de Solis, por isso não se pode precisar o motivo por que ele escolheu o nome Patos para esses dois lugares.
Pode-se, porém, afirmar que não o tirou de uma tribo de Índios, pois que nenhum dos historiadores do século XVI, que se referem à sua viagem (Oviedo, Guevara e Herrera, 1535, 1552 e 1601) faz menção de tais Índios, citando pelo contrário os Charruas e outros. Devia, portanto, provir o nome da grande quantidade de patos ai encontrados.
Isto não é uma simples conjectura sem base, porém um fato confirmado por documentos que datam de poucos anos depois. No roteiro da viagem de Diogo Garcia, realizada em 1526 e 1527, lê-se o seguinte:
E andando en el camino allegamos a un río que se llama el río de los Patos questá a 27 grados, que ay una buena geracion que hacen muy buena obra a los cristianos, e llaman-se los Carrioces, que ali nos deram muchas vituallas que se llama millo é harina de mandioca, e muchas calabazas e muchos patos e otros muchos bastimentos porque eran buenos indios.
Na carta em que Luiz Ramirez descreve a viagem de Sebastião Gaboto, realizada ao mesmo tempo que a de Garcia, tendo-se os dois exploradores encontrado em Santa Catarina, lê-se também:
Dijeron que cuatro meses poco más ó menos antes allegásemos a este puerto de los Patos, que así se llamaba de elles estaban (...) En esta isla había muchas palmas en este puerto nos traían los indios infinito bastimento así de faisanes, de gallinas, babas, patos, perdices, venados, que de esto todo y de otras muchas maneras de caza había en abundancia y mucha miel.
Em nenhum destes dois documentos, que assinalam a existência de patos em Santa Catarina, se fala em Índios com tal nome, apesar de virem relacionadas as tribos encontradas pela costa. Diogo Garcia dá mesmo o nome dos Índios de Santa Catarina, os Carrioces.
Outro testemunho confirma ainda estes dois. O Adelantado D. Álvaro Nunes Cabeça de Vaca, tendo arribado a Santa Catarina, em 9 de Março de 1541, cruzou dali em direção ao Paraguai, pelo sertão, onde encontrou, dias depois, uma tribo de Índios, que o receberam com mostras de amizade.
Adelantado ou adiantado: funcionário do Reino de Castela que tinha a máxima autoridade judicial e governativa sobre um distrito.
Nos Comentários da expedição, lê-se: 
Esta nação chama-se Guarani, são lavradores que, duas vezes por ano, semeiam milho. Cultivam também mandioca (caçabi), criam galinhas e patos à maneira de Espanha e em suas habitações têm muitos papagaios. 
Há ainda uma objeção a refutar, e esta oposta pelo Dr. Hermann von Ihering, que, encarando a questão sob um ponto de vista diferente, negou a existência na Lagoa e em Santa Catarina do Pato Comum (Pato do mato - Cairina moschata), concluindo daí que não podia ter ele dado origem ao nome, que no seu entender provêm dos Índios Patos. O argumento do ilustre naturalista, que a primeira vista parece resolver a questão, não resiste a exame. Os primeiros exploradores da costa, não sendo entendidos em história natural, podiam tomar pelo Pato Europeu qualquer outro palmípede, que se lhe assemelhasse um pouco. 
Do exposto podem-se tirar três conclusões:
1°   Em toda a costa de Santa Catarina ao Rio da Prata havia grande abundância de patos, que foram vistos por Solis, Diogo Garcia, Sebastião Gaboto e Cabeça de Vaca; 
2°   Nenhum dos cronistas e roteiros do século XVI faz menção de Índios Patos, apesar de relacionarem as tribos da Costa; 
3.°  Simão de Vasconcellos explicou bem a origem dos nomes Lagoa dos Patos, Rio dos Patos, Laguna dos Patos; porém enganou-se, afirmando que os patos começaram a procriar aí em 1554. 
Deve ficar, portanto, como certo, que o nome da Lagoa dos Patos, provém das aves desse nome e não de uma tribo de Índios assim chamada.
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A questão tem, como se vê, duas faces, uma ornitológica e outra etnográfica, que em seguida trataremos separadamente.

O ponto de vista ornitológico

As opiniões dos autores divergem muito sobre esta questão, opinando uns por aves domésticas importadas, outros por diversas aves indígenas, entre as quais é preciso mencionar particularmente: o Pato do Brasil, Biguá e o Pinguim. O nome “Pato” cabe em geral às espécies maiores dos Palmípedes comestíveis da família Anatidæ, cujas espécies menores são denominadas Marrecas. Esta palavra de “Pato” acha-se, em sua aplicação no Brasil, restrita à Cairina moschata (Linn.), denominada “Pato real” pelos espanhóis. Esta espécie pertence em geral mais às regiões centrais do Brasil, sendo rara, ou faltando mesmo, na maior parte do nosso litoral. No Rio Grande do Sul é encontrada particularmente ao longo dos grandes rios, marginados por mato alto; mas não é ave da Lagoa dos Patos. 
Há nesta um cisne, Cygnus melanocoryphus (cisne-de-pescoço-negro), denominado “Pato arminho”. Embora seja certo que o número das aves aquáticas nas margens da “Lagoa dos Patos” diminuiu bastante nos últimos cinquenta anos, assim mesmo perto da cidade do Rio Grande obtive nada menos de 14 espécies de Anatidas; não estava incluído, entretanto, neste número a Cairina moschata. Como as minhas observações estão de acordo com as de Wied, Azara e outros observadores, é certo que o nome da Lagoa dos Patos não pode ser derivada de patos silvestres do gênero Cairina, posto que se tome por base as atuais condições faunísticas. Este fato, contudo, não exclui a hipótese de este nome provir de patos domesticados. Infelizmente é muito insuficiente o nosso conhecimento das aves criadas pelos indígenas antigos do Brasil. Uma das informações mais valiosas neste sentido devemos a Alvar Nunes Cabeça de Vaca, que em sua expedição pelo interior do Estado de Santa Catarina em 1541 notou que os indígenas “criam galinhas e gansos à maneira dos Espanhóis”. Esta indicação evidentemente se refere a Jacus e Patos e observo que eu mesmo tive, no terreiro da minha propriedade na Barra do Camaquã, Jacus e também uma Cairina moschata silvestre, em estado mais ou menos domesticado. 
Penso que entre todas nossas aves o pato é o que com mais facilidade pode ser domesticado e cruzado com as marrecas e patos criados. Os Jacus também são amansados com relativa facilidade, mas de noite não são capazes de entrar no galinheiro, empoleirando-se, pelo contrário, na cumeeira da casa. 
Von Martins diz que na região amazônica se criam espécies de Psophía e Crax e no Brasil Oriental o Mutum (Crax carunculata Temm.). Markgrav descreve bem o pato, mas não diz que seja criado pelos indígenas, acontecendo o mesmo com Azara, Wied e tantos outros autores, que consultei. O Padre Nóbrega diz que no Estado de S. Paulo houve muita caça de mato e patos, que os Índios criam; bois, vacas, ovelhas, cabras e galinhas se dão também na terra e há delas grande quantidade. Outra informação valiosa referente ao Estado da Bahia devemos a Gabriel Soares que, diz:
criam-se mais ao longo destes rios e nas lagoas muitas aves, a que o gentio chama “upeca”, que são da feição das da Espanha, mas muito maiores, as quais dormem em árvores altas, e criam no chão perto da água. Comem peixe, e da mandioca que está a curtir nas ribeiras, tomam os Índios estas aves, quando são novas, e criam-nas em casa, onde se fazem muito domésticas.
É certo que o Pato europeu não é mais senão um descendente da Cairina moschata da América Meridional. Han diz que já em tempos remotos se criavam patos na América.
Na sua segunda viagem Colombo viu destas aves em S. Domingos e entre elas também brancas. Southey, conta que os indígenas no Paraguai criavam nas suas casas patos almiscarados, o que se refere à Cairina moschata. Presume-se que o pato, que era a única ave criada pelos antigos Peruanos chamado “nuñuma” veio do Peru à Europa, passando pela África.
A primeira descrição desta ave deu, na Europa, Conrad Gesner, em 1555, e no mesmo ano em Paris já se ofereciam patos como fina iguaria. Na América Meridional os patos eram criados, segundo estes dados, no Peru, Paraguai e no Brasil.
Parece, entretanto, pouco provável, que já então houvessem patos domesticados na costa, como se depreende também do trecho indicado de Alvar Nunes Cabeça de Vaca. Por esta razão não podemos admitir que a ilha de Santa Catarina e diversos rios, portos e a Lagoa dos Patos tivessem recebido seus nomes de patos domesticados do gênero Cairina. 
F. F. Outes dá sobre o nome da ilha de S. Catarina a seguinte informação: 
Santa Cruz en su “Islario” da a entender claramente que tanto á la isla de Santa Catarina como al territorio continental adyacente se conocía en la primera época del descubrimiento bajo el nombre de los Patospor los muchos de ellos que allí se vieron la primera vez que fue descubierto”. Esta afirmación del ilustre cosmógrafo se halla confirmada en muchos documentos de la época. Me bastará citar las declaraciones de Antonio de Montoya y El “maestre” Juan en respuesta á la 20ª pregunta del interrogatorio en el pleito del Capitán Francisco del Rojas con Sebastian Caboto. Entre los autores modernos todos han aceptado La denominación antedicha ...
La causa del mencionado nombre parece estar en la gran cantidad de “patos negros sin pluma, y con el pico curvo”, conforme a expressão de Francisco Lopez de Camará (Historia general de las Indias, in Historiadores primitivos de Indias). Estas aves, continua Outes, alguns autores supunham serem pinguins. 
Estas informações antes dificultam do que facilitam a explicação. Não podemos admitir que estes patos tivessem sido Pinguins - Spheniscus magellanicus (pinguim-de-magalhães) porque estes, embora aparecendo as vezes nas costas do Brasil Meridional, nunca entram na água doce, não podendo, por conseguinte, dar o seu nome a rios e lagoas. Além disto, a cor é diferente e também o bico, é direito sem ponta recurvada.
O caráter indicado do bico nos faz pensar no Biguá (Carbo vigua Vieill.) que também é de cor uniforme preta, mas a expressão “sem penas” não pode ser aplicada nem a esta, nem com relação a qualquer outra espécie. Além disto, o Biguá, muito semelhante a espécie congênere da Europa, conhecido como “Corvo marinho”, não pode ser confundido com patos e marrecas e ocorre nas costas da América Meridional desde a Patagônia até a Guiana.
Observo ainda que não é fácil explicar o nome de “Biguassú” ou Biguá grande, dado a um rio de Santa Catarina, visto que há uma só espécie de Biguá. Há outra ave, bastante diferente em cor e bico, que é denominada Biguá-tinga (Plotus anhinga L.), porém é mais ou menos do mesmo tamanho e não ocorre na costa, mas nos grandes rios no interior do Brasil.
Biguá-tinga: conhecido também como carará na Amazônia. Deste modo entende-se que os patos a que se referem os historiadores não podem ter sido nem pinguins nem biguás, sendo possível que se tratasse da Cairina moschata, provavelmente então muito mais comum na zona litoral do Brasil Meridional do que hoje.
Ponto de vista etimológico

Numerosos escritores dos séculos XVIII e XIX referem-se a uma tribo de Índios Patos. Sobre o domicilio dela diz o Coronel José J. Machado de Oliveira:
O rio dos Patos é hoje conhecido com o nome de Biguassú, que desemboca no canal que separa do continente a ilha de Santa Catarina; servia ele de confins as tribos dos Carijós e dos Patos, que habitavam a primeira, o litoral entre a Conceição e o Biguassú, e a segunda o que decorre deste para o Sul.
Na sua história da Capitania de S. Vicente, publicada em 1772, diz Pedro Taques de Almeida Paes Leme:
É certo que da Vila de S. Vicente saíram, em 24 de Agosto de 1554, os Padres jesuítas Pedro Corrêa e João de Souza para a missão dos gentíos Tupis e Carijós dos Patos e ambos foram mortos pela barbaridade destes Índios, como escreve o Padre Simão de Vasconcellos na “Chronica do Brazil”, onde mostra que Pedro Corrêa era sujeito de nobreza conhecida, e se fizera opulento na Vila de S. Vicente, para onde tinha vindo com o fidalgo Martim Alfonso de Souza, porém que, deixando a vida secular, tomara a roupeta (hábito talar dos sacerdotes) no Colégio de S. Vicente, e, ordenado, de presbítero, empregara o seu talento e ciência da língua dos gentíos em convertê-los à fé católica, até que encontrara com a coroa do martirio pelos bárbaros Índios Carijós do Sertão dos Patos.
Outras informações sobre a região ocupada pelos Patos encontram-se no artigo de Felix F. Outes, “El puerto de los patos”, que reproduz vários mapas antigos do Brasil e do Paraguai, que, além dos dados geográficos, contém indicações sobre as diversas tribos indígenas. Estes mapas dão para a região do Rio Grande do Sul e parte contígua de Santa Catarina o nome dos Índios Patos. O mais antigo destes mapas com tal indicação é o da Est. VIII “construido por los jesuitas (1646-1649)”. Todos os outros mapas seguintes indicam na mesma região os Índios Patos. Os mapas mais antigos, publicados por Outes, não dão os nomes das tribos indígenas.
Não parece existir nenhuma informação exata sobre estes Patos. Tomando em consideração que o território do Rio Grande do Sul nos tempos antigos não foi explorado e só bem tarde foi colonizado, não é de admirar que sejam escassos e insuficientes os dados referentes aos primitivos habitantes do Rio Grande do Sul. É singular, entretanto, que o livro do Padre Gay, tratando minuciosamente dos indígenas do Brasil Meridional e do Paraguai nem sequer nos transmita o nome de uma nação dos Patos. É bastante notável neste sentido o manuscrito do ano de 1612 que Gay reproduz com referencia aos indígenas do Rio Grande do Sul, mencionando Guaranis, Arachanes, Charruas e Goianás. Nem o manuscrito anônimo de 1584, nem Gabriel Soares mencionam os Patos, tratando, aliás, apenas dos indígenas desde o Pará até Santa Catarina.
Com referência ao livro de Ayres Casal diz Alfredo F. Rodrigues, ter ele sido o primeiro a mencionar os Índios Patos, ao passo que segundo F. Outes ele se teria referido não a Índios, mas à ave Pato. Neste sentido trata-se de um engano do último dos dois autores, visto que o livro de Ayres Casal se refere exclusivamente a Índios - “A Lagoa dos Patos, que tomou o nome duma Nação desconhecida ...”
Em geral podemos verificar que os escritores do século XVI não mencionam Índios Patos, referindo-se apenas às aves palmípedes e que nas publicações do século XVII se acha registrada uma tribo de Patos, sem que, entretanto, fossem dadas informações exatas. 

Conclusões

Resulta da exposição precedente que, para a explicação dos nomes da Lagoa dos Patos, do Rio dos Patos, etc. na literatura antiga há duas versões: Uma que se refere às aves palmípedes de que trata a literatura do século XVI e outra referente aos Índios Patos segundo a literatura do século XVII e seguintes. Contra esta segunda opinião pode-se objetar a falta de informações, referentes a estes indígenas na literatura mais antiga e isto no próprio manuscrito anônimo de 1612, publicado por Gay. É preciso, entretanto, considerar que algum dos outros nomes de tribos Rio-grandenses, indicados naquele manuscrito, pode ser sinônimo do dos Patos e, mais, que argumentos de caráter negativo nada provam, particularmente, sendo, como é, a literatura antiga deficiente em informações etnográficas aproveitáveis. Por sua vez a literatura do século XVI contém várias informações sobre a origem ornitológica destas denominações, mas as mesmas são contraditórias entre si. As aves a que se referem os antigos escritores, é licito supor-se, não devem ter sido nem pinguins ou biguás nem marrecas ou patos domesticados. Já João Dias de Solis, em 1515, deu à Ilha de S. Catarina o nome de Ilha dos Patos, sendo impossível supor que isto dissesse
respeito a aves domesticadas, importadas da Europa. 
Se as diversas denominações dos “Patos” fazem referência à aves aquáticas, pode-se tratar apenas do “Pato Real” (Cairina moschata), devendo-se supor que esta ave tenha existido naquela época em muito maior número que hoje, nas costas do Brasil Meridional. Se assim for, não seria para admirar que os exploradores tivessem dado a várias localidades a denominação dos “Patos”, visto representar esta ave, sem dúvida, a caça mais valiosa entre as aves aquáticas daquela região. 
Em favor desta hipótese posso acrescentar o resultado de um estudo geológico por mim publicado, que prova uma modificação profunda no caráter da vegetação no litoral do Rio Grande do Sul. Perto da costa observei, na vizinhança da cidade de Rio Grande do Sul, colinas, coroadas de uma vegetação de arbustos espinhosos, que mostravam pouco em baixo da superfície uma camada argilosa, humosa, com conchas terrestres e fluviais, que sugerem uma modificação profunda da flora e da fauna.
De experiências desta ordem devem lembrar-se os engenheiros que pretendera melhorar as condições da Barra; recomenda-se, como auxílio indispensável, a defesa das terras por meio de vegetação, não só nas margens do canal, mas também numa faixa de 1 a 2 léguas de largura.
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 É preciso confessar que os dados aqui expostos não conduziram a um resultado seguro.
Admitindo que os autores que falam de Índios Patos tivessem cometido um erro, a mesma suposição é aplicável aos autores do século XVI, cujas informações a respeito das aves “patos” são contraditórias, mas também em parte incompreensíveis e evidentemente falsas. A explicação, entretanto, que nas atuais circunstâncias mais se recomenda, é a do Sr. Alfredo F. Rodrigues, que precisa ser modificada só no que diz respeito às aves que causaram a dita denominação. O caso seria então o de ter sido, antigamente, o Pato Real muito mais frequente no Brasil Meridional do que atualmente, tendo causado a denominação de várias localidades porque, como excelente caça que é, tornou-se digno de toda atenção por parte dos descobridores. O que neste sentido nos confirma mais nesta opinião é o fato de existirem também em outros Estados do Brasil localidades com a denominação de “Patos”, como nos estados de Minas Gerais e Paraíba. Não podemos atribuir estes nomes também naqueles Estados a uma tribo desconhecida dos Patos, sendo ao contrário evidente que a explicação, que deriva de uma origem comum a todas estas denominações, é a mais aceitável.

São Paulo, 8 de Agosto de 1903

Livro

O livro “Desafiando o Rio-Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre, na Livraria EDIPUCRS – PUCRS, na rede da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br) e na AACV – Colégio Militar de Porto Alegre.
Para visualizar, parcialmente, o livro acesse o link:
Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA); Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS); Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional.