sexta-feira, 20 de julho de 2012

PARA, CORAÇÃO!

Por Paulo Sant’Ana
Parece que ainda ouço a voz de Altemar Dutra, a quem recordo com profunda saudade, nos versos de Jair Amorim e Evaldo Gouvea: “Então se deu/ a tarde ia no fim/ o encontro aconteceu/ que surpresa pra mim/ depois de tanto amar/ de repente eu te vi/ na calçada a me olhar/ e o que senti/ difícil de explicar/ na rua em frente a ti/ tanta gente a passar/ neste instante fugaz/ lembranças nada mais.”
Mas incrivelmente o encontro aquele aconteceu, passo a imaginar. E o que é pior ou melhor: ela fez um jeitinho de quem quer voltar.
Sabem lá o que é a gente se sentindo tão distante do amor perdido e de repente encontrá-la na calçada, e ela, simpática, fazer nada mais que um jeitinho de quem quer voltar?
Prossegue Altemar Dutra: “Parece incrível/ naquela hora eu via/ que a gente bem podia/ tudo de novo começar/ mas fui andando/ pela calçada afora/ por que chamar agora/ quem nunca soube voltar?.”
É, tristeza não tem fim, lá se foi ela pela calçada, mergulhada na névoa do passado. E aqui ficam comigo todas as desesperanças, as sentidas recordações de um tempo feliz que teima em nunca mais retornar.
Meu Deus, que tristeza insistente. Coração, por que é que tu não paras?
Por que continuas a bater, coração, inutilmente, se nada mais de graça tem esta vida depois que ela se foi?
Coração, por que é que tu não paras? Se de nada adianta mais pulsares, coração, por que insistes com tuas improdutivas sístoles e diástoles?
Ah, coração, te percebo apunhalado pelo aço frio do abandono, então por que é que tu não paras?
Lembras-te, coração, de quando palpitavas célere e pujantemente apaixonado? Batias aceleradamente por ela, coração! Valia a pena bateres, tivemos os melhores instantes de nossa vida a amar-nos perdidamente enamorados. E como era grande, lembro-me sempre, coração, da tua vibração.
Batias quieto coração, mas quando ela se aproximava ao longe, começavas a bater num ritmo frenético. Era ela, viva, inquieta, desejante, que se aproximava.
E eu e ela íamos caminhando de braços dados pela alameda, crentes de que nunca mais deixaríamos de ser felizes.
E trocávamos beijos apaixonados! E trocávamos juras de fidelidade! E caminhávamos juntos pelas ruas e respirávamos um perfume inebriante que se exalava das árvores, um aroma embriagador que inacreditavelmente se desprendia das folhas amarelas de outono caídas no chão.
Coração, por que é que tu não paras? Não há mais razão para viver. Só o amor contínuo constrói para a eternidade.
E, coração, se vires que pode ainda merecer-te a lembrança terna que tenho dela, acelera novamente, coração, acaso possa, o que não acredito, ela voltar para ti e para mim, então voltarias a bater enlouquecido por esta bendita e maldita mulher que deixou marcada em ti, coração, a tatuagem da lembrança inapagável dela.

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