domingo, 6 de março de 2011

DESAFIANDO O RIO-MAR - OS TAPAJÓ

Hiram Reis e Silva, Porto Alegre, RS, 04 de março de 2011.

“De qualquer forma, o que se descobriu até agora é extremamente importante. Não só para a história do Brasil, como para a história da humanidade: estamos entendendo que o homem não é tão limitado como se pensa”.
(Christiane Machado)

SANTARÉM, CIDADE RICA E PROMISSORA QUE CRESCEU AO LONGO DA MARGEM DIREITA DO RIO TAPAJÓS, (foto acima) ALI REPOUSAM OS VESTÍGIOS DE UM POVO PRIMITIVO, EM MEIO AO VERDE DA MATA,TENDO O ENCONTRO DAS ÁGUAS AO ALCANCE DOS OLHOS... VIVIA UMA TRIBO DE ÍNDIOS... COM UMA ARTE TÃO OU MAIS BELA QUE AS PAISAGENS PARADISÍACAS QUE SE DESCORTINAVAM A SUA FRENTE.
ATÉ O SÉCULO XVII ESTA ERA A TERRA DOS ÍNDIOS TAPAJÓ. A CERÂMICA TAPAJÔNICA OU SANTARÉM É UMA DAS MAIS BONITAS DA PRÉ-HISTÓRIA BRASILEIRA E, PROVAVELMENTE, A MAIS ANTIGA DA AMAZÔNIA.

- Paleoíndios

Os sítios arqueológicos de Monte Alegre foram visitados por diversos pesquisadores. Dentre eles ressaltamos Charles Frederick Hartt que realizou, em 1871, estudos sobre as inscrições rupestres da Serra da Lua. Em 1889, Alfred Russel Wallace publicou um trabalho descrevendo as Serras e Grutas da região, no qual faz referência às inscrições rupestres.

Recentemente, a arqueóloga norte-americana Dr. Anna Curtenius Roosevelt, bisneta do presidente norte-americano Theodore Roosevelt, professora da Universidade de Illinois e curadora do Museu Field de Chicago, visitando as instalações do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, ficou impressionada com a qualidade e a beleza da Cerâmica Santarena. Roosevelt realizou pesquisas no município de Monte Alegre, no Pará, e suas escavações revelaram, nas camadas mais profundas da Caverna da Pedra Pintada, ossos, dentes, pontas de flecha, fragmentos de cerâmica, restos de cuias e vasos, pigmentos de pinturas e pinturas rupestres.

Para se chegar ao local, partindo de Monte Alegre, é necessário percorrer cinquenta quilômetros de trilhas no interior da selva até a cordilheira do Ererê, onde fica a Serra da Lua, lá se encontraram pinturas rupestres representando o Sol, a Lua e, provavelmente, outras figuras do cosmos. Logo mais adiante, na Serra Paytuma, Roosevelt pesquisou, de 1990 a 1992, a Caverna do Pilão (ou Caverna da Pedra Pintada) e, segundo ela, existem vestígios suficientes para afirmar que grupos humanos habitaram a Caverna no período compreendido entre 11.200 a.C. e 9.800 a.C. No final da Idade do Gelo, quando a temperatura começou a elevar-se, as cavernas deixaram de ser a opção ideal de moradia e os paleoíndios foram obrigados a abandoná-la e partir para os cerrados do Planalto Central buscando novas alternativas de sobrevivência. A floresta, na Amazônia, por sua vez, foi, lentamente, se tornando mais densa, e para lá retornaram estes grupos, cerca de 2.000 anos depois, para viver às margens dos Rios. Essas migrações, certamente, não foram pontuais e se processaram em toda extensão da Amazônia.

- Tupuiu ou Tupaiu

O escritor e pesquisador Felisberto Sussuarana comenta que a principal Aldeia dessa tribo era a “Tupuiu”, também era chamada por alguns cronistas de “Tupaiu”, que embora parônimas no idioma português, na linguagem indígena, tinham significados bastante distintos:

O vocábulo “tupuiu” é composto do termo “ypy” que significa “primeiro, princípio, começo, fundamento, cabeça de povoação, principal” e do substantivo, simplificado do verbo, “yu”, que significa “estada”. Mas “morada, pousada, morar” quando prefixado com “t” do caso absoluto, que, na unidade semântica de “ypyyu”, significa “povoar em primeiro lugar”, absolutiza a forma “typyyu”, morada dos primeiros povoadores. (SUSSUARANA)


E continua,


A “tupuiu” era uma Aldeia ampla, com cerca de 500 famílias. Observava a forma tupi do aldeamento, com ocas ou casas em torno duma “ocaraçu”, largo rossio, que era a muiraciçaua ocara. Suas casas eram retangulares, com paredes de madeira lavrada, justaposta uma peça à outra, internamente forradas com mantas de algodão de cores vivas e cobertas com palha de pindoba, tendo duas compridas águas e duas curtas quase a pique sobre as que seriam empenas. (SUSSUARANA)

Tupuiu” se referia, portanto à Aldeia ou povoação e o termo “tupaiu” designava a enseada de águas escuras e límpidas de Santarém.

- Relatos Pretéritos

A região do Rio Tapajós foi, sem dúvida, um dos berços mais importantes destas ondas migratórias que retornaram dos cerrados em busca da fartura que a selva luxuriante propiciava. Encontramos inúmeros relatos a respeito dos Tapajó que se iniciaram a partir do século XVI (1542) e, que depois de dois séculos, foram diminuindo, desaparecendo até se tornarem uma tribo extinta. Podemos apresentar diversos fatores que concorreram para isso: como a morte provocada pelas “novas” doenças trazidas pelos europeus, a ação das tropas de “resgate” provocando um êxodo em massa para locais de difícil acesso, e a grande miscigenação provocada pelos “aldeamentos” em que diversas etnias conviviam entre si e com os brancos gerando uma grande confusão de elementos culturais indígenas além da imposição dos valores europeus que alteraram, significativamente, sua organização social.

1542 - Frei Gaspar de Carvajal

A primeira referencia sobre os indígenas que povoaram a foz do Tapajós foi feita pelo Frei Gaspar de Carvajal, em julho de 1542, no seu “Relatório do Novo Descobrimento do Famoso Rio Grande Descoberto pelo Capitão Francisco de Orellana”, Carvajal relata:

Navegamos rapidamente, desviando-nos dos lugares povoados e uma tarde fomos dormir em uma floresta de carvalhos localizada na boca de um rio que entrava pela mão direita no de nossa navegação, com uma légua de largura. (CARVAJAL)

Ali permaneceram um dia e meio aproveitando para descansar e colocar proteções laterais nos barcos. Carvajal narra que nas proximidades deste rio foram atacados pelos índios:

No final das contas escapamos quase sem problemas, ainda que tenha sido morto outro companheiro nosso chamado Garcia Soria, natural de Logronho. Na verdade não lhe entrou a flecha meio dedo, mais como estava já com peçonha, não suportou nem vinte e quatro horas e rendeu a alma ao Nosso Senhor. (CARVAJAL)

Carvajal não nomina os índios e nem o rio, porém, uma análise do percurso sugere que se tratava realmente do Rio Tapajós. Vários pesquisadores concordam com esta tese. A pesquisadora norte-americana Helen C. Palmatary que iniciou os estudos descritivos de coleções arqueológicas da Amazônia, em 1939, afirmava que:

O fato do Rio Tapajós entrar no Amazonas pelo lado direito; o fato do fluxo de água no cruzamento dos rios levar em direção ao Tapajós; os vestígios da área sugerem que a região era densamente povoada como de fato os portugueses a encontraram anos mais tarde; e o fato dos grupos indígenas do rio Tapajós e os do lado oposto do rio Amazonas usarem flechas envenenadas. (PALMATARY)

1637 - Frei Alonso de Rojas e Laureano de la Cruz

Em 1637, chegaram a Vila de Nossa Senhora de Belém, seis soldados e dois leigos franciscanos embarcados em uma frágil canoa. Os franciscanos Andrés de Toledo e Domingos de Brieva haviam fugido da missão sediada às margens do Rio Napo dirigida pelo Frei Laureano de la Cruz. Os índios haviam se rebelado e, enquanto, um grupo chefiado pelo Frei Laureano fugia para Quito, os Freis Andrés de Toledo e Domingos de Brieva preferiram, juntamente com seis soldados, descer o Rio até Belém. Um destes soldados, o português Francisco Fernandes, já havia residido no Pará e conhecia relativamente bem a área. A viagem não foi documentada, na época, mas sua história gerou uma crônica cuja autoria foi atribuída ao Frei jesuíta Alonso de Rojas, que, em Quito, teve acesso às informações sobre a expedição, e escreveu, em 1639, a crônica “Relación del Descubrimiento del Río de las Amazonas y sus dilatadas Províncias y ..., hoy San Francisco de Quito, y declaración del mapa onde está pintado ... (1640)”. Nela Rojas afirma que os religiosos e soldados foram bem recebidos, abrigados e alimentados:

Esses mesmos soldados e os dois religiosos quando desceram o Rio, chegaram a umas mui dilatadas províncias cujos habitantes são chamados pelos portugueses Extrapajozes. Estes agasalharam os religiosos e os soldados e, por sinais lhes disseram que fossem com eles por um Rio acima, em cuja margem encontraram uma grande Aldeia (...) Meteram-nos em uma casa muito grande, com madeiras lavradas, forradas de mantas de algodão, entretecidas de fios de diversas cores, onde puseram uma rede para cada qual dos seus hóspedes, feita de folhas de palmeira e bordada de diversas cores, e lhes deram para comer: caça, aves e peixes. Nesta aldeia viram os soldados caveiras de homens, arcabuzes, pistolas e camisas de pano. Disto deram depois a notícia aos portugueses e lhes disseram que aqueles índios tinham morto alguns holandeses que chegaram até aquelas províncias sendo deles as caveiras e as armas. (ROJAS)

Frei Laureano de La Cruz, por sua vez, escreveu sobre a mesma expedição um relato que chamou de “Nuevo descubrimiento del Río de Marañón, llamado de las Amazonas, hecho por la Religión de San Francisco, año de 1651”. Laureano afirma que ao chegar à Província dos “Trapajosos” os expedicionários tiveram suas roupas, víveres e demais pertences roubados.

Prosseguindo a viagem, logo adiante fugiram os dois índios, mas continuaram, apesar disso, em busca do seu descobrimento. Já tinham caminhado os servos de Deus 200 léguas, sem encontrar gente, por estarem os povoados ali afastados do Rio, quando chegaram à província dos Omáguas, onde foram providos de mantimentos, de que iam muito necessitados (...) Foram continuando a viagem reconhecendo as povoações dos gentios que iam encontrando pelas margens do nosso grande Rio, e passando sem estorvo nem contradição alguma, perto das conquistas de Portugal (sem terem encontrado o “Eldorado” nem a “Casa do Sol”), chegaram a uma província chamada de Trapajosos, onde os seus moradores, cobiçosos, atrevidos, despiram os pobres tirando o pouco que levavam. Desta maneira continuaram a viagem, até que chegaram a uma praça de portugueses, que se chama Gurupá. (LA CRUZ)

1639 - Frei Cristóbal de Acuña

O Capitão Pedro Teixeira, em 1639, retornando do Vice Reino de Quito, chega ao Rio Tapajós, depois de passar pelo estreito de Óbidos, o relator da expedição Frei Cristóbal de Acuña faz, então, a seguinte consideração no seu “Novo descobrimento do Rio Amazonas”:

LXXIV – Rio e Nação dos Tapajós

A quarenta léguas deste estreito desemboca, pela margem Sul, o grande e vistoso Rio dos Tapajós, que toma o nome da nação e província de nativos que vivem em suas margens, que são muito bem povoadas por bárbaros, com boas terras e abundantes mantimentos.

Acuña dá notícia da hospitalidade e das flechas “ervadas” dos bravos Tapajós:

São estes Tapajós, gente de brio, muito temidos pelas nações circunvizinhas porque usam um tipo de veneno em suas flechas, que apenas tirando sangue tiram, sem remédio, também a vida. E devido a isso os próprios portugueses recearam, por muito tempo, seu contato, desejando conseguir por bem sua amizade. Nunca conseguiram totalmente tal coisa, porque obrigavam, com isso os nativos a abandonarem seu espaço natural e virem morar entre os índios já pacificados, coisa que sentem muito estes Tapajós. No entanto, em suas terras recebiam com grande hospitalidade aos nossos, como pudemos experimentá-lo alojados em uma de suas aldeias de mais de quinhentas famílias, onde durante todo o dia não cessaram de vir trocar galinhas, patos, redes, pescado, farinha, frutas e outras coisas, com tanta confiança, que mulheres e crianças não se afastavam de nós propondo que, se os deixássemos em suas terras, com muito prazer poderiam vir os portugueses a povoá-las, que os receberiam e serviriam em paz por toda a vida.

Acuña fala da perseguição protagonizada pelos portugueses e em especial a da expedição comandada por Bento Maciel Parente, homônimo e filho do governador do Estado do Maranhão e Grão Pará:

LXXV – A Opressão que fizeram os portugueses

Não foram suficientes os humildes oferecimentos destes Tapajós para pessoas interessadas, como são as que estão envolvidas nestas conquistas e que só enfrentam dificuldades com a cobiça de escravos que esperam aprisionar, para que fossem acatados ou pelo menos elevados em consideração e conveniência. Ao contrário, suspeitando que esta nação tinha muitos escravos a seu serviço, trataram de mover-lhes, com toda a força, dura guerra, acusando-os de rebeldes. Sobre tal guerra estavam tratando quando chegamos de nossa jornada ao Forte do Desterro onde se reunia gente para tão desumana ação.

Forte do Desterro: localizava-se à margem direita da foz do rio Uacarapy, afluente da margem esquerda do rio Amazonas, no Estado do Pará. Foi erguido, em 1623, por Bento Maciel Parente, quando assumiu o governo da Capitania.

E apesar de que, por todos os meios que pude, procurei, senão impedi-la, pelo menos suspendê-la até que houvesse nova ordem de Sua Majestade, o Sargento-mor do Estado, Cabo e Chefe de todos, que era Bento Maciel, filho do governador, deu-me sua palavra de que não prosseguiria no seu intento até receber um aviso de seu pai. Tão logo virei as costas, juntando a maior quantidade de gente que pode, numa lancha com oito peças de artilharia e outras embarcações menores, o sargento ofereceu-lhes dura guerra, se não quisessem boa paz. Esta a admitiram-na logo os nativos, de boa vontade, como sempre a tinham oferecido, dispostos a fazer tudo o que quisessem de suas pessoas.

Ordenaram-lhes os portugueses que entregassem todas as suas flechas envenenadas que tinham, que era o que mais se podia recear, o que os miseráveis obedeceram prontamente. E, vendo-os tão desarmados, os portugueses tomaram grande quantidade deles e encerraram-nos em um curral forte com suficiente guarda, soltando então os índios amigos que traziam, que para fazer o mal cada um é um diabo solto. Em breve espaço de tempo saquearam toda a aldeia, sem deixar coisa que não destruíssem, aproveitando-se, conforme me contou quem o viu, das filhas e esposas dos presos aflitos diante de seus próprios olhos. E faziam coisas que, garantiu-me esta pessoa que é bem antiga naquelas conquistas, para não vê-las, não só deixaria de comprar escravos, como também daria de graça os que possuía.

Não parou aqui a crueldade dos portugueses que, como iam envolvidos na cobiça de escravos, não ficariam satisfeitos até verem-se senhores deles. Ameaçavam os índios encurralados e assustados, atemorizando-os de novo com sua força, para que oferecessem escravos, assegurando-lhes que, com isso, não apenas ficariam livres, mas também seriam seus amigos, carregados de ferramentas e tecido de algodão que lhes dariam por eles. Que poderiam fazer esses miseráveis, presos sem suas armas, com suas casas saqueadas, oprimidas suas mulheres e filhas, senão submeterem-se a tudo o que lhes quisessem fazer? Ofereceram mil escravos e foram buscá-los, mas com o alvoroço da terra, os índios tinham se reunido e procurado um refúgio e, não podendo juntar mais que duzentos, entregaram-nos. Com a promessa de que entregariam o restante, os portugueses deixaram livres, dessa forma, os que, por assim verem-se, ofereceram seus próprios filhos como escravos, como muitas vezes tem sucedido. Despacharam todos estes escravos ao Maranhão e Pará, que eu vi com meus próprios olhos e, saboreando a vitória, preparam logo outra expedição maior para outra nação mais adentro do Rio das Amazonas, onde crueldades serão, sem dúvida, muito maiores, já que vão menos pessoas de valor que possam enfrentar quem a todos comanda. (ACUÑA)

1650 - Frei Laureano de La Cruz

Frei Laureano de La Cruz subiu o Rio Tapajós, em 1650, integrando uma expedição portuguesa com o intuito de resgatar índios cativos. Eram estes, os índios de outras tribos que os Tapajó aprisionavam em suas guerras. Frei La Cruz explicou que:

las razones com que los portugueses queren paliar su iniquidad, son decir que aquellos indios que ellos ibam à rescatar los tienen ya sus anos senteciados à muerte para comérselos, y que les hacen buena obra en libralos de la muerte y sacarlos à tierra de cristianos à donde lo sean, aunque esclavos. (LA CRUZ)

1659 Padre Antônio Viera

O Padre jesuíta Serafim Soares Leite (1890-1969) foi um poeta, escritor e historiador português viveu muitos anos no Brasil e se tornou um dos maiores pesquisadores da atuação dos jesuítas no Brasil. Escreveu a “História da Companhia de Jesus no Brasil”, em dez volumes, que o tornou merecedor do Prêmio Nacional de História (Prêmio Alexandre Herculano), em 1938. Serafim afirma que no primeiro semestre de 1659, o processo de catequese dos Tapajó se iniciou com a vinda do Padre Antônio Vieira à região:

Visitou a sua grande taba, percorreu suas praias e arredores, conversou com eles, pois sabia falar a “língua brasílica”, na qual compusera catecismos, orações e cânticos religiosos. Certamente, exercitou o seu sagrado ministério na oportunidade, catequizando, pregando, batizando e rezando missas. Os selvagens pediram ao Padre Vieira que mandasse missionários para levantarem cruz e igrejas, como vinham fazendo em Xingu e gurupatuba. Padre Antônio Vieira prometeu atendê-los. E não se esqueceu da promessa. (LEITE)

1660 - Missionário Gaspar Misseh

O Padre Antônio Vieira expediu até o Rio Tapajós e suas aldeias os missionários Tomé Ribeiro e Gaspar Misseh que aportaram em Belém em 1660. O próprio Misseh faz o seguinte relato:

Saíram os dois de Gurupá no dia 31 de maio de 1661 e acharam a Aldeia dos Tapajós, com índios de seis tribos diferentes. No dia seguinte ao da chegada, os Índios com mulheres e filhos vieram ofertar-lhes os habituais presentes: mandioca, milho, galinhas, ovos, beijus, mel, peixes e carne de moquém. E por sua vez receberam as dádivas que mais ambicionavam: espelhos, facas, machados, velórios, vidrilhos, etc. Os Padres celebraram a festa de Ascensão de Nosso Senhor, à portuguesa, com tiros e morteiros. Houve missa, fez-se catequeses, realizaram-se batismos e antes de descerem ao Pará os Padres ergueram, entre expectação e comoção geral, no terreiro da Aldeia, uma grande Cruz. (MISSEH)

1661 - Padre João Felipe Bettendorf

Em 1661, o Padre Antonio Vieira, ordenou ao padre Bettendorf a fundação de uma missão que teria como base a aldeia de Nossa Senhora da Conceição dos Tapajós, povoamento que, mais tarde, viria a ser denominado de Santarém. Bettendorf faz o seguinte relato na sua “Crônica da Missão dos Padres da Companhia de Jesus no Estado do Maranhão”:

Apenas tinha eu estado uns poucos meses em companhia do padre Francisco da Veiga na Aldeia de São João em Murtigura, quando o Padre visitador o Subprior Antônio Vieira ma chamou à casa do Pará, e lá levando-me para o cubículo que hoje serve de livraria, me mostrou no mapa o grande Rio das Amazonas e disse-me: “Eis aqui, meu Padre João Felipe, a diligência do famoso rio das Amazonas, pois a Vossa Reverencia elegeu Deus por primeiro Missionário do assento dele, tome ânimo e aparelhe-se que em tal dia partirá, e levará por companheiro um irmão conhecedor da língua, Sebastião Teixeira, para o ajudar nas ocasiões em que for necessário. Respondi-lhe eu que estimava muito esta dita de ser o primeiro Missionário de um Rio tão afamado e de uma tão dilatada missão, e agradecia muito a Deus e a sua Reverência essa eleição, e que da minha parte faria todo o possível para corresponder, segundo a obrigação que me ficava a trabalhar com grande zelo pela salvação das almas que por ele havia. Aviou-me logo o Padre Francisco Velloso, Superior da casa, com as cousas seguintes que aqui se referem, para saberem os Missionários do tempo antigo. Deu-me uma canoa meâzinha já quase velha e sem cavernas bastantes, um altar portátil com todo o seu aviamento, (...); e com isso mandou à Murtigura em busca de farinha para a viagem, e ao Cametá em busca de umas poucas tartarugas, que as daria o Padre Salvador do Vale.

Queria o Padre Subprior Antônio Vieira que as residências dos Ingaybas, onde assistia o Padre João Maria Gorsony, e a do Gurupá, onde assistia o Padre Gaspar Misseh e a do Rio das Amazonas com os Tapajós, fossem sobre si sem mais dependência que do Padre Subprior da Missão; mas respondi-lhe eu que da minha parte não queria ser independente da casa do Pará, porque convinha ter a quem recorrer nas necessidades que se oferecessem e houvesse quem tivesse obrigação de acudir-me em razão de seu ofício; e com isso não se efetivou o que o Padre Subprior pretendia fazer, caso os Padres Missionários quisessem. Com este limitadíssimo aviamento, eu com meu companheiro, muito doente, fomos para minha missão, que não tinha outro limite “que todo o Rio das Amazonas”, que corre pelo distrito das conquistas da Coroa de Portugal, começando na Aldeia do Ouro, em Cambebas, até a residência de Gurupá ou Tapará, incluindo de mais todo o Rio dos Tapajós com suas serrinhas e sertões. Chegado que fui a Murtigura deu-me o Padre Francisco da Veiga uns três para quatro paneiros (cestos) de farinha com uma só tartaruga, que os índios comeram por ceia. Em Cametá não me deu o Padre Salvador de Valles mais que uma boa vontade, por não ter peixe, nem cousa alguma para me dar naquela missão; e assim partimos, sustentando-nos pelo caminho com farinha e um bocadilho de doce, tirado do boiãozinho que levávamos. Não faltaria algum conduto se o irmão mais prático que eu, que ainda era novato, mandasse pescar os índios; passados uns seis para sete dias chegamos à Fortaleza de Gurupá, onde o Paulo Martins Garro mandou disparar duas peças de artilharia para com isso nos dar as boas vindas, e agasalhou-nos muito bem; no dia seguinte nos acompanhou em sua canoa até o Tapará, fazendo os gastos pelo caminho, botando-me água às mãos, para com isso dar exemplo do respeito que os índios me haviam de guardar. Andamos dia e quase meio de Gurupá até a Residência do Tapará, onde não achamos o Padre Tomé Ribeiro, nem o Padre Gaspar Misseh, por haverem ido ambos para o Pará; fizeram-nos os índios seus presentes de peixe-boi assado e excelente, mas, como não é tão sadio, comendo dele o Capitão-Mór logo lhe deram febres que duraram muito tempo, com que, despedindo-se, voltou para sua Fortaleza, e nós, depois de termos doutrinado os índios conforme pedia a necessidade, fomos para Igoaquara. Aqui ajuntei a gente que lá havia, doutrinei e lhe fiz pratica do que haviam de guardar em minha ausência, e deste modo fui visitando as mais aldeias, catequizando, batizando e confessando. Estava naquele tempo a Aldeia de Curupatiba dividida em duas: uma que estava em uma porta do monte sobre o igarapé e se chamava Caravela pelos brancos, e não é crível quanto me custou batizar aqui uma velha, para que não morresse sem a água do santo batismo; a outra parte estava em riba do monte onde está hoje; e como me encaminhava para ele de madrugada, vieram os índios, postos por fileiras, com candeinhas de cera preta em mãos receber-nos, levaram-nos para sua Aldeia; aqui achei muito que fazer: avisei todos que se juntassem na Igreja, disse-lhes a Missa, doutrinei e batizei quantidade de inocentes, e, sem embargo de ter encomendado que não deixassem nenhum ainda dos que não fossem batizados, ficara de fora um rapazinho que estava muito mal. Porém, quis Deus que, acabado já tudo, como parecia, entrasse eu em dúvida se porventura por negligencia dos índios tinha ficado alguma criança sem batismo; portanto, sem embargo parecer isto ao irmão escrúpulo, quis eu tornar a visitar as casas que já tinha visitado todas. Coisa notável: entrando em casa de um principal, vi uma redinha velha e preta de fumaça, e, chegando para ver o que nela estava, achei um rapazinho inocente reduzido a ossos e quase aos últimos da morte. Perguntei ao Índio Principal se este menino estava batizado e respondeu-me ele que não, e que não se tinha tratado dele, pois estava muito mal; então dando-se eu uma repreensão ao Principal, batizei lá mesmo o menino chamando-o Francisco Xavier. Foi isto singular providência de Deus, porque pouco depois se foi para o Céu gozar da vista de seu Criador, da qual havia se privado para sempre se eu por inspiração particular não tivesse tornado a visitar as casas.

De Gurupatuba fomos para o Tapajós, onde havia de fazer minha residência, conforme a ordem do Padre Superior e Visitador, Antônio Vieira. Lá chegamos depois das festas do Espírito Santo (fins de junho de 1661) e fomos recebidos dos índios daquela populosa Aldeia com grande alvoroço e alegria; levaram-nos para uma casinha de palma, eu não tinha mais cômodo que uma varandinha com dois limitados cubículos (quartos pequenos) e, à ilharga (ao lado), uma choupaninha para dizer Missas.

Vieram ver-nos não somente os cinco “principais” que havia naquele tempo, de diversas nações na Aldeia, mas, também, os mais com suas mulheres e filhinhos, trazendo-nos presentes a que chamavam “putabas” (putáuas) A todos contentei, dando-lhes juntamente a razão da minha vinda, de que gostaram muito, por haver tempos que desejavam a dita de ter consigo Missionário da Companhia de Jesus. No dia seguinte, vieram outros “principais” do Sertão, também com suas dádivas de cágados e frutas, rogando, com muita instância, quiséssemos chegar até suas terras para levantar a Santa Cruz e fazer-lhe igreja, como nas mais aldeias dos cristãos; correspondi a seus presentes com a pobreza que trazia comigo, dando-lhes minha palavra que cedo lhes atenderia com o que pediam. (BETTENDORF)

Bettendorf, na sua famosa “Crônica da Missão dos Padres da Companhia de Jesus no Estado do Maranhão”, reproduzida mais tarde pelo Padre João Daniel no seu “Tesouro descoberto no Máximo Rio Amazonas”, escrita na prisão entre 1757 e 1776, faz referência ao caso do Padre Antônio Pereira, conhecido como o “Queimador dos Monhangaripes”:

Possuíam os índios Tapajós alguns corpos (ou múmias) ressequidas de seus antepassados, que conservavam numa casa dentro da mata, e aos quais prestavam periódicas homenagens ou adoração, segundo pensavam os padres. Em torno desses cadáveres secos mantinham rigoroso segredo, só conhecido dos pajés e dos homens velhos da tribo. Chamavam a essas múmias “Monhangaripes”. (BETTENDORF)

No seu tempo, Bettendorf não tentou eliminar a prática ancestral seguindo o conselho de Maria Moaçara, principaleza da tribo e de outros tuxauas que temiam uma revolta de grandes proporções.

Padre Antônio Pereira, entretanto, contando com o respaldo de muitos habitantes brancos na Aldeia, usando conselhos e ameaças, conseguiu que os índios lhe trouxessem as múmias e mais “umas pedras que usavam por ídolos”. Apresentaram os silvícolas sete corpos mirrados dos seus avoengos (antepassados, ascendentes) e umas cinco pedras que também adoravam... As pedras todas tinham sua dedicação ou denominação, com alguma figura que denotava para os que serviam. Uma presidia aos casamentos, como o deus do Himeneu dos antigos; outra à qual imploravam o bom sucesso nos partos, e assim as mais... Havia também a que presidia as pescarias e caçadas, plantações, etc. (BETTENDORF)

Estes ídolos de cerâmica são chamados pelos populares de “Buda dos índios”.

Padre Antônio Pereira não esteve com paliativos: mandou queimar no grande terreiro da igreja os sete cadáveres secos, cujas cinzas, juntamente com as “pedras”, mandou deitar no meio do Rio. Os Tapajós ficaram desgostosos, mas, se aquietaram, com receio dos brancos. (BETTENDORF)

Em 1685, Antônio Pereira foi designado para fundar uma aldeia no extremo Norte próximo a Caiena com o objetivo de neutralizar a influência dos franceses sobre os indígenas da área. Numa manhã de setembro de 1687, enquanto rezava a Missa, o Padre, seus companheiros e quatro índios mansos foram atacados e massacrados. Os corpos foram amontoados, cobertos de lenha e incinerados. Bettendorf faz o seguinte comentário nas suas “Crônicas” a respeito da vingança dos “Monhangaripes”:

Parece que o inimigo infernal, raivoso contra o Padre Antônio Pereira, que pouco antes tinha mandado queimar os ossos dos que os Tapajós adoravam como seus “Monhangaripes” e ídolos, não achando já em que vingar-se dele, instigou essa ocasião aos bárbaros do Cabo Norte para que lhe tirassem a vida e o queimassem visto ter ele feito queimar os ossos dos avoengos dos Tapajós. (BETTENDORF)

1662 - Ouvidor-mor Mauricio Heriarte

A crônica Mauricio Heriarte, feita a pedido do governador do Maranhão e Grão-Pará, foi escrita em 1662, vinte e cinco anos depois de ter participado da expedição de Pedro Teixeira. Heriarte compilou, provavelmente, as informações coletadas junto aos parceiros da expedição de Pedro Teixeira, incluindo o próprio Favella. Nem sempre o que ele descreve foram fatos que vivenciou pessoalmente como participante da expedição, mas baseia-se nas narrações de outros membros da expedição. É dele a primeira notícia sobre os muiraquitãs e sua manufatura:

Este rio onde estão situados estes Índios Tapajós é muito caudaloso e de aprazíveis terras, e claríssimas águas. Não é de muito peixe, desce do poente, e deságua e mete no Amazonas. Até esta província chegam naos de alto bordo, e por este Rio dos Tapajós vão quatro jornadas a resgatar madeiras, redes, urucus, e pedras verdes, que os índios chamam de buraquitãs (muiraquitãs) e os estrangeiros do norte estimam muito; e comumente se diz que estas pedras se lavram, neste Rio dos Tapajós, de um barro verde, que se cria debaixo da água, e debaixo dela fazem contas redondas e compridas, vasos para beber, assentos, pássaros, rãs e outras figuras; e, tirando-o feito debaixo da água, ao ar, se endurece tal barro de tal maneira que fica convertido em mui duríssima pedra verde; e é o melhor contrato destes Índios e deles estimado. (HERIARTE)

Heriarte informou que esta era a maior aldeia com cerca de sessenta mil guerreiros muito temidos pelas outras nações que habitavam aquela região. Segundo Heriarte, os Tapajó:

São extremamente bárbaros e mal inclinados. Tem ídolos pintados que adoram, e a quem pagam dízimo das sementeiras, que são de grades roças de milho e é o seu sustento, que não usam tanto de mandioca para farinha, como as demais nações. (HERIARTE)

Fez, ainda, considerações sobre as potencialidades da terra e a organização social dos Tapajó afirmando que cada aldeia era composta por vinte ou trinta casais governados por um Principal ao qual todos prestavam obediência. Heriarte mostra a importância fundamental do Rio Tapajós para a economia que se baseava na possibilidade de se conseguir escravos e no potencial agrícola das terras.

O clima desta província é quente, de mui boas e alegres terras, capazes para criar muitos gados, vacum, ovelhas, cabras e gado de cerda. Tem muitas serras, e pela falda delas e por algumas ilhas que tem este Rio e o das Amazonas, se podem fazer grandes engenhos de açúcar; porquanto as crescentes do rio frutificam todas aquelas terras, em que os índios fazem roças de milho, e frutas e alguma mandioca. Governam-se estes Índios por Principais, em cada rancho, com vinte ou trinta casais, e a todos os governa um Principal grande sobre todos, de quem é muito obedecido. Dão guerra estes a todos os demais daquele circuito, de quem são temidos. Tem muitos escravos; outros que vendem aos portugueses por ferramentas para fazerem suas lavouras, e roças a terra. Este Rio era digno de se descobrir, porquanto mostra ser de muito proveito para estas conquistas. (HERIARTE)

1719 - Padre Manuel Rebelo

O Padre jesuíta Serafim Soares Leite cita que, em 1719:

(...) a esta Aldeia pertencem não só os Tapajós, mas outras nações em particular os Arapiunses e Corarienses, os quais todos são já para cima de trinta e cinco mil cristão. (LEITE)

1737 - Padre José Lopes

Ainda segundo o Padre jesuíta Serafim Soares Leite:

O Padre Jesuíta José Lopes localizou em 1737 o aldeamento onde agora está a Vila, (Boim) dizendo que o novo sítio não era faminto, mas muito alegre, ventilado e sadio. (LEITE)

1753 - Padre Lourenço Kaulen

Em 16 de novembro 1753, o Padre jesuíta alemão Lourenço Kaulen envia uma carta à D. Maria d’Áustria, rainha-mãe de Portugal, solicitando que a rainha:

... se dignasse a permitir aos Padres Alemães que viessem para trabalhar e salvar as almas, que passassem, por exemplo, pelos rios Tapajós ou Xingu, onde pudessem empregar o nosso zelo... (KAULEN)

1757 - Padre João Daniel

Em 1757, o Padre João Daniel viajou pelo rio Amazonas e registrou a “missão Tapajós, hoje vila de Santarém”. Dos Tapajós fez menção apenas à sua idolatria, dizendo que eles

E no mesmo rio sucedeu outro caso na Missão chamada de Tapajós, intitulada hoje Vila de Santarém, que também prova serem os Índios na verdade verdadeiros idolatras. Lia o Missionário em Avendanho, e achou nele esta proposição: que os Índios também idolatravam em ídolos, e que com muita dificuldade largavam os ritos e costumes dos seus avoengos. Quis o Missionário indagar a verdade, e chamando alguns Índios, que julgava mais fiéis, lhes fez uma prática domestica sobre a obrigação, que todos temos de adorar a um só Deus; mas que ele lendo aquela proposição desconfiava que eles adoravam alguns ídolos; e assim que lhes descobrissem a verdade do que havia, e si eram verdadeiros Católicos. Responderão os Índios que na verdade adoravam alguns corpos e criaturas, e que os tinham muito ocultos em uma casa no meio dos matos, de que só sabiam os mais velhos e adultos. Admoestou-os o Padre que lhes trouxessem todos, como “veri” trouxeram sete corpos mirrados dos seus avoengos, e umas cinco pedras, que também adoravam. Não dizia o Missionário quais eram, ou em que consistiam as adorações que lhes davam, mais do que em certo dia do ano ajuntarem-se os velhos com muito segredo, e de companhia iam fazer-lhe alguma romagem, e os vestiam de novo com bretanha ou algum outro pano, que cada um tinha. As pedras todas tinham sua dedicação e denominação, com alguma figura, que denotava para que serviam. (DANIEL)

João Daniel não cita o nome do miserável Padre Antônio Pereira, cujo nome temos ciência graças às “Crônicas” do Padre João Felipe Bettendorf.

Desenganado então o Missionário da sua pouca Religião e muita idolatria, à sua vista e em publica praça mandou queimar estes seus ídolos, ou sete corpos mirrados, cujas cinzas juntamente com as pedras mandou deitar no meio do rio, desejando afundir com elas por uma vez a sua cegueira e cega idolatria: (...) (BETTENDORF)

1762 - Dom João de São José de Queirós da Silveira

O Bispo João de São José, em 1762, se referiu ao Rio Tapajós afirmando que o mesmo fora habitado por índios do mesmo nome e que “tem muito gentilismo” este Rio.

1779 - Tenente Coronel Ricardo Franco de Almeida Serra

Ricardo Franco de Almeida Serra, português de nascimento, aportou no Brasil em 1780. Formado em Engenharia e Infantaria, esse engenheiro-soldado, cartógrafo, geógrafo e astrônomo tornou-se um dos expoentes do desbravamento e da defesa do imenso território brasileiro nas regiões Norte e Centro-Oeste, tendo feito desde o mapeamento dessas regiões a obras de engenharia. Era urgente assegurar nossa integridade territorial. O coronel Ricardo Franco fez o levantamento de fronteiras, explorando mais de 50 Rios das bacias do Amazonas e do Prata, e mapeou as capitanias do Grão-Pará, Piauí, de São José do Rio Negro e de Mato Grosso. Além disso, dirigiu trabalhos de construção de várias fortificações, entre as quais o Quartel dos Dragões de Vila Bela (no atual Mato Grosso) e o Forte Príncipe da Beira (em Rondônia). Das obras de Ricardo Franco, sobressai a construção e defesa do Forte Coimbra, em pleno pantanal sul-matogrossense. (Site Exército Brasileiro)

O Tenente Coronel Ricardo Franco fez a última referencia aos Tapajó em 1779. Navegando o Tapajós desde foz até a confluência do rio Arinos com o Juruena, onde se forma, afirmou:

Que desde esta confluência até o Amazonas tem o Rio Tapajós o seu nome próprio, corre em geral de sul a norte, e é povoado por muitas nações de índios; sendo as mais conhecidas Tapajós, Manducús, Xavante, Urubús, Passabús, Mia-u-ahim, Ereruuas, Mayes, Ituarupa, Tucumaus, Urucú, Tapuyas e outros. (SERRA)

1819 - Carl Friedrich Philipp von Martius

Em 1819, Martius fazia as seguintes considerações sobre os Tapajó, na sua obra “Viagem pelo Brasil”:

Merece citar-se que o nome dessa nação (Tapajós) não mais aparece entre as que atualmente vivem às margens do Rio Tapajós e às dos seus afluentes, e que, também, o uso de flechas ervadas (envenenadas) não mais subsiste. Pode ser que o tratamento cruel aos Tapajônicos infligido pelos portugueses os tenha exterminado completamente ou isso os levou a fugir para Oeste rumo a paragens onde nunca mais se encontrassem com os emigrantes europeus. (MARTIUS)

1875 - Barbosa Rodrigues

Barbosa Rodrigues considerava que a extinção dos Tapajó tinha iniciado com a expansão portuguesa naquela região levando-os a migrar para o interior. Estes índios formaram diversas malocas com nomes diferentes, e assim em 1661 quando os jesuítas chegaram seu número já era reduzido.

- Blog e Livro

Os artigos relativos à “3ª Fase do Projeto-Aventura Desafiando o Rio-Mar – Descendo o Amazonas I” estão reproduzidos, na íntegra, ricamente ilustrados, no Blog desafiandooriomar.blogspot.com desenvolvido, recentemente, pela minha querida amiga e parceira de Projeto Rosângela Schardosim. O Blog contempla também as duas fases anteriores de minhas descidas pelo Rio Solimões e Rio Negro de caiaque.

O livro “Desafiando o Rio-Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre, na Livraria EDIPUCRS - PUCRS, Livraria Dinamic - Colégio Militar de Porto Alegre, através do e-mail hiramrsilva@gmail.com. ou ainda rede da Livraria Cultura, ou pela web, no seu Site através do Link: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/busca/busca.asp?palavra=DESAFIANDO+O+rio+mar&tipo_pesq=titulo&sid=7107322541333728388820667&k5=7526980&uid=&limpa=0&parceiro=TITGAI),

Fontes:

ACUÑA, Christóbal de - Nuevo Descubrimiento del Gran Rio de las Amazonas - Espanha – Madrid - Ed. García, 1891.

BAENA, Antonio Ladislau Monteiro. Compêndio das Eras da Província do Pará (1615-1823) - Belém, PA: Editora da Universidade Federal do Pará, 1969.

BARATA, Frederico - Os Maravilhosos Cachimbos de Santarém - Estudos Brasileiros, VOL 13 N º37-9, RJ, 1944

CARVAJAL, Gaspar de - Relatório do Novo Descobrimento do Famoso Rio Grande Descoberto Pelo Capitão Francisco de Orellana - Brasil - Consejería de Educación - Embajada de Espana - Editorial Scritta, 1992.

CORRÊA, Conceição Gentil. A cerâmica Arqueológica de Santarém. Santarém, PA: Programa da Festa de Nossa Senhora da Conceição (PFNSC), 1973.

NIMUENDAJU, Curt Os-Tapajó. In: Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi - vol X, Belém, 1948.

REIS, Arthur Cezar Ferreira Reis. Santarém: seu Desenvolvimento Histórico - Rio de Janeiro - Editora Civilização Brasileira, 1979.

SANTOS, Paulo Rodrigues dos. Tupaiulândia. ICBS/ACN. Santarém, PA: Gráfica e Editora Tiagão, 1999.

SUSSUARANA, Felisberto. Santarém antes da sua Fundação. Santarém, PA: Programa da Festa de Nossa Senhora da Conceição (PFNSC), 1991.

WALLACE, Alfred Russel. Viagens pelo Amazonas e Rio Negro. São Paulo: Ed. Companhia Editora Nacional, 1939.

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA); Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS); Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB); Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS); Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional.

Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br - E–mail: hiramrs@terra.com.br

sábado, 5 de março de 2011

COMENTÁRIO DE RACHEL SHEHERAZADE SOBRE O CARNAVAL

A jornalista Rachel Sheherazade, do Tambaú Notícias, tece comentário polêmico acerca das festividades de Carnaval.


Recebi do amigo Juma Durski via e-mail.

RÉPLICA DO TEMPLO DE SALOMÃO NO BRASIL É VISTA COMO UMA GOZAÇÃO

O Instituto do Templo de Jerusalém disse que o plano da Igreja Universal de construir uma réplica monstruosa do Templo de Salomão que custará aproximadamente R$ 360 milhões está sendo “para sua própria gloria

Bispo Edir Macedo

A Igreja Universal do Reino de Deus, liderada pelo controverso Bispo Edir Macedo, anunciou seus planos de construir uma réplica gigante do Templo de Salomão. A estimativa de custo é de R$360 milhões, 55 metros de altura (18 andares), e com lugar para 10.000 pessoas. O plano também conta com um estacionamento para 1.000 carros, estúdios de TV e rádio, e salas com espaço para 1.300 alunos.

“Vai ser sensacional”, disse Macedo, “ Será lindo, lindo, lindo- a coisa mais bonita de todas. O lado de fora será exatamente igual o que foi construído em Jerusalém”.

O Instituto do Templo em Jerusalém vê isso com outros olhos, para eles é “um ato de arrogância voltado para sua própria gloria. Esse plano é uma gozação que vai diretamente contra tudo aquilo que o Templo Santo de Jerusalém representa.”

Foto do Templo de Salomão em Jerusalém (maquete)

A Igreja Universal já gastou em torno de R$ 14,4 milhões para importar pedras de Israel. De acordo com o jornal britânico, The Guardian, o templo será inspirado no Templo do Rei Salomão e contará uma replica da Arca da Aliança no centro do santuário.

O Rabino Chaim Richman do Instituto do Templo escreve, “Nós somos hoje testemunhas de um fenômeno que tenta tirar a legitimidade da relação de Israel com Jerusalém. Esse plano de construir uma mega igreja representa o próximo passo de tirar toda essa legitimidade de Jerusalém.”.

“A Bíblia ensina que a essência de Jerusalém é a presença de Deus”, disse o Rabino Richman, que continua citando uma profecia do livro de Isaias 2:2: ”Nos últimos dias, acontecerá que o monte da Casa do Senhor será estabelecido nos cimos dos montes e se elevará sobre os outeiros, e para ele afluirão todos os povos. Irão muitas nações e dirão: Vinde, e subamos ao monte do Senhor e à casa do Deus de Jacó, porque de Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor, de Jerusalém.”


Foto de como será o Templo de Salomão no Brás

“A mega igreja planejada pelo Bispo Macedo”, diz o Rabino Richamn, “é uma usurpação e um abuso ao espaço sagrado e ao conceito de Templo Santo que é representado na Bíblia, e também é uma brusca forma de se apropriar de valores sagrados do Judaísmo. A Divina Presença de Deus não pode ser copiada ou simplesmente usurpada e transportada para outro lugar. Isso não é nada mais que uma tentativa sínica e manipuladora da Igreja Universal do Reino de Deus de encaixar a mensagem universal da Bíblia em sua própria agenda.”


Instituto do Templo, uma organização religiosa e educacional sem fins lucrativos, é dedicada para cuidar de todos os aspectos dos mandamentos Bíblicos sobre a construção do Templo Santo de Deus no Monte Moriah em Jerusalém. Seu maior foco e esforço é reconstruir o Templo Santo em Jerusalém.

Em 1992, Bispo Macedo ficou onze dias preso por fraude. No ano passado, um processo de São Paulo alegou que Macedo e outro pastor sênior embolsaram bilhões de doações em dólares e usaram o dinheiro para comprar propriedades e carros. Macedo, um defensor da teologia da prosperidade e dono de um jato particular de R$81 milhões, negou as acusações.

Traduzido por: Giovanna Tranchesi / Fonte: IsraelNationalNews.com

Fonte: Adonainews.

Reportagem do site R7, que passou na Rede Record sobre a construção desta igreja:
http://ihaa.com.br/templo-de-salomaonova-sede-da-igreja-universalfotos-e-videos-de-reportagens/

Comentário de Julio Severo: A réplica do Templo de Salomão, feita em verdadeiro estilo faraônico para engrandecer e glorificar a Igreja Universal e seu dono é um símbolo dos sacrifícios de centenas de milhares de pessoas desesperadas por um milagre. Jesus disse:

“Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes.” (Mateus 12:7 ACF)

A Igreja Universal, que exige tantos sacrifícios dos membros, não tem nenhuma misericórdia dos bebês em gestação. Tanto o Bispo Macedo quanto sua TV Record têm condenado esses inocentes ao assassinato. Veja o artigo: Bispo Edir Macedo assume publicamente preferência pelo aborto: http://juliosevero.blogspot.com/2010/08/bispo-edir-macedo-assume-publicamente.html

Fontes: Julio Severo e IHAA

A JOANINHA TODA BOA

A reação é coisa positiva; só reage quem está vivo e com energia. O reacionário é alguém que reage porque está vivo e recomenda-se; e precisamos de mais gente a reagir a textos bloquistas como este.

A Joana Amaral Dias é segundo dizem, toda boa. Porém, o fato de ela ser, alegadamente, toda boa, não lhe dá automaticamente toda a razão, por via de um fenômeno de dissociação cognitiva através do qual se passa a pensar com as vergonhas do corpo. Em Portugal, quando alguém toda boa abre a boca, normalmente saem pérolas; ou, se escarra os progressistas acorrem, em massa, a analisar a bílis.

Existe uma diferença entre o status quo e a reação. Eu sou reacionário e, portanto não posso, por definição, pertencer ao status quo. O status quo está acomodado; não gosta de reações; o status quo não gosta de reacionárias. Porém, a maior diferença, talvez, é a que existe entre o reaccionário e o revolucionário.

O revolucionário serve-se da acedia do status quo para implementar uma agenda política totalitária e contra-natura — que é o que a toda boa Joana defende, por mais que ela diga “que não, e coisa e tal”. A geração à rasca, ou a geração Peter Pan, é composta pelos idiotas úteis que Lenine satirizou e que tanto agradam à mente revolucionária da suposta toda boa Joaninha.

O reacionário faz o que eu fiz aqui: manda-os, a todos, à merda.

Geração à rasca”, ou “geração Peter Pan”?

O feminismo transformou os homens em rapazinhos; o feminismo eliminou os Homens com H maiúsculo. Os “rapazinhos adultos” da geração Peter Pan procuram mulheres que tomem conta deles. Este fenômeno cultural da geração Peter Pan decorre da eliminação dos ritos de passagem que existem em qualquer sociedade decente e com futuro.

Na maioria das sociedades em países africanos, por exemplo, existem rituais de passagem específicos para os dois sexos. Esses rituais de passagem garantem uma sociedade saudável e a sua continuidade. Porém, esses ritos de passagem são tradicionalmente muito mais exigentes nos rapazes do que nas raparigas: eles têm que demonstrar coragem, poder físico e capacidade competitiva.

Em contraponto, em Portugal e na Europa, existe uma incerteza cultural acerca do papel do homem na sociedade, em função da eliminação dos ritos de passagem nos dois sexos decorrente da imposição dos valores feministas. O feminismo eliminou os homens a sério, e criou a geração dos Peter Pans. Os maridos e pais são agora uma mera opção, e os valores tradicionais do pai e marido são hoje considerados obsoletos e ridículos — e cria-se uma situação de círculo vicioso em bola de neve, em que os adolescentes não sublimam o Édipo e a ação do superego é reprimida, dando lugar ao narcisismo masculino doentio que caracteriza uma série de anomalias sociais.

Não está em causa, neste meu discurso, o direito da mulher à educação, à igualdade política e à equivalência de papéis sociais. O que está em causa é o ataque cultural do feminismo — e do politicamente correto em geral — contra o casamento e contra a maternidade; o conceito de “igualdade feminista” nivela-se pelo mais baixo instinto.

Uma das razões por que a subespécie de Neanderthal desapareceu, liga-se exatamente à ausência de ritos de passagem, diferentes para os dois sexos. As mulheres de Neanderthal iam à caça, na companhia dos homens; as crianças eram abandonadas, e toda a tribo era endemicamente mal nutrida. A vantagem seletiva do homo sapiens liga-se exatamente com a distribuição de tarefas na tribo e na família, coisa que não existia entre os de Neanderthal.

O feminismo transforma o homo sapiens em uma espécie de Neanderthal atual, e as sociedades do “Neanderthal moderno” estão condenadas à decadência. É apenas uma questão de tempo.

Fonte: Perspectivas.

PARTIDOS POLÍTICOS PIRATAS


A bandeira que vai acima é de um partido político, o Pirate Party, pois é, ele existe, foi criado no ano passado. O partido diz que a plataforma é melhorar a comunicação mundial eliminando as leis de patentes autorais. Isso para mim é pilhar o conhecimento e o dinheiro alheios. O Wikipedia diz que um desses partidos está ativo no Brasil. Seria apenas mais um.

Um das coisas que mais me entristece no Brasil é ver que não temos partidos políticos, com ideologias definidas e princípios claros. Todos se misturam, usam quaisquer ideologias e princípios para se manterem no poder. Isso ocorre no exterior? Sim, mas tudo é uma questão de medida e no Brasil a medida azedou muito a fórmula. Nos países desenvolvidos, os políticos tendem a eliminar os princípios para ficarem no comando, mas eles sofrem penalidades eleitorais quando fazem isso. Os eleitores nesses países são mais fiéis às ideologias que eles votaram e condenam os políticos que não a segue. Parece que no Brasil todos os partidos políticos são partidos piratas, eles estão aí para abocanhar o dinheiro público da maneira mais fácil e rápida, sem seguir regras, e, o pior, o povo continua votando neles.

Esse blog nasceu no dia 13 de maio do ano passado, e o primeiro post que escrevi estava estimulado por uma uma cena política esdrúxula na Inglaterra. Era a entrevista que mostrava a suposta "união" dos conservadores com os da extrema esquerda inglesa, representada pelo partido liberal-democrata. Isso só foi possível porque o conservador não é conservador em seus princípios ideológicos, os liberais-democratas também não e os dois queriam chegar ao poder.

Mas parece que o prefeito de
São Paulo, Gilberto Kassab
vai criar mais um partido
político pirata no Brasil.


Na oportunidade, eu disse que o resultado disso seria o fim do partido conservador como alternativa de valores. Os eleitores desse partido iriam se bandear para o Ukip, partido pequeno mas que mantém mais firmeza de princípios. Eu ainda disse que achava que a coalizão não iria chegar a 2011.

Acertei a primeira previsão com louvor, mas errei a segunda. Posso argumentar que na verdade eu não errei a segunda pois os liberais democratas estão desaparecendo da coalizão, eles perderam completamente o apoio popular, por isso não significam nenhuma força de poder dentro do governo. O que o líder deles, Nick Clegg, diz nem o governo leva a sério.

Os liberais democratas agora são menos populares que o partido mais odiado pela imprensa inglesa (BNP) e ficaram em um humilhante sexto lugar nas últimas eleições no distrito Barnsley Central, ficando atrás até de um candidato independente. Os conservadores vieram apenas em terceiro. Os dois foram ultrapassados pelo Ukip e a eleição foi vencida pelo partido que tanto conservadores como liberais-democratas quiseram tira do poder na eleição de 2010, o partido trabalhista.

O povo inglês mostra nas últimas pesquisas que quer um partido realmente conservador.
Eu acho que ele quer pelo menos verdadeiros partidos, com princípios claros. Assim como eu acho que nós precisamos no Brasil, mas nossos eleitores não estão convencidos disso.


sexta-feira, 4 de março de 2011

O EXEMPLO DOS EGÍPCIOS

Por João Bosco Leal

Foto: Peter Macdiarmid/Getty Images
Protestos no Egito

O artigo de Augusto Nunes "Mire-se no exemplo dos egípcios" publicado por Veja, trata de uma assunto que realmente precisa ser discutido em nosso país. Como diz o autor, centenas, milhares de brasileiros vivem debatendo nos sites e blogs da internet, o que pode, e o que deve ser feito, mas nada, literalmente nada ocorre com os envolvidos nos mais diversos escândalos, recentemente publicados no país.

O escândalo que ficou conhecido como Mensalão do PT, com trinta e oito pessoas indiciadas, ainda nem foi julgado pelo Supremo Tribunal Federal, e muitos dos que nele estão envolvidos já estão novamente assumindo cargos importantes no governo Dilma Rousseff.

A certeza da impunidade é tanta, que o senhor José Genoíno, acusado de ser o avalista das operações fraudulentas praticadas pelos acusados, já trabalha como assessor especial do Ministro da Defesa, Nelson Jobim, exatamente aquele que comanda as Forças Armadas, que no passado prendeu o guerrilheiro Genoíno.

João Paulo Cunha, outro réu no mesmo processo, assumiu exatamente a Comissão de Constituição de Justiça da Câmara, como que se toda a Câmara pretendesse mostrar ao STF que já realizou o julgamento de um dos seus, e que não se importará com a decisão daquela Corte.

José Dirceu, acusado de ser um dos líderes do grupo, já dá entrevistas e opiniões no governo Dilma, sobre assuntos que deveriam ser de competência exclusiva da Presidente da República e de seus Ministros.

Começando pelo Presidente do Senado, José Sarney, todos se calam, aceitam, se tornam cúmplices na indicação, ou indicam eles próprios, pessoas para cargos de importância relevante, que, pelo menos até o julgamento final das ações em que são acusados, em nenhuma hipótese poderiam assumir cargos públicos.

O autor pergunta ainda como impedir que o país se torne um imenso clube de cafajestes, se não aparecem líderes, ou mesmo partidos políticos, dispostos a liderar esse imenso contingente de inconformados, e lembra que a história nos ensina que a surdez dos donos do poder só é superada pela voz das ruas. O Egito, lembra o autor, mostrou que agora é ainda mais fácil, que já se pode fazer pela internet o que líderes e políticos, por interesses diversos e quase sempre escusos, não querem fazer, mas o povo pode.

Como militante que fui de política classista durante muitos anos, posso dizer que no Brasil somos muito despolitizados, que cada um procura cuidar do próprio umbigo, e ainda não entendeu que, sem pensar o coletivo, o povo, o país, a nação, jamais chegaremos a lugar algum, e que, isolados, sempre seremos vencidos.

A partir do momento que se têm a consciência de que unidos, mesmo desarmados, podemos muito, já é possível começar a pensar em alternativas, pois há muito pouco tempo os jovens caras pintadas deste país já fizeram uma verdadeira revolução, saindo em massa às ruas, e provocaram um impeachment, desarmados, sem um único tiro.

Não é difícil então, para os brasileiros, exigir que projetos como o que ficou conhecido como Ficha Limpa, seja não só votado e aprovado, mas cumprido assim como foi proposto, e não permitindo que se encontrem artifícios jurídicos, de modo a permitir que réus de processos inconclusos ou mesmo os já condenados tomem posse como vem ocorrendo, como com José Genoíno, João Paulo Cunha e tantos outros.

Os brasileiros conscientes têm a obrigação de participar, se não concorrendo e assumindo cargos públicos, pelo menos de sair da sala e do conforto de sua casa, e lutar por um país maravilhoso, do qual nos orgulhemos, governado por pessoas íntegras, interessadas no progresso do país e na qualidade de vida seu povo, e não nos próprios bolsos, como hoje ocorre com a grande maioria dos membros dos Três Poderes Constituídos.

quinta-feira, 3 de março de 2011

A UNIVERSIDADE PÚBLICA E O SEU PAPEL NO DESENVOLVIMENTO LOCAL

Por Tatiane Alves Baptista

Professora Coordenadora de Estudos
Estratégicos e Desenvolvimento da
UERJ -Tatiane Alves Baptista

A universidade pública precisa criar e incentivar mecanismos para ampliar sua capacidade de interação com a sociedade. No entanto, internamente, a extensão é constantemente considerada menor entre as atribuições dos docentes. Ela, muitas vezes, é reduzida a uma mera prestação de serviços, dependendo sempre das demandas externas, já que os recursos são poucos para as pesquisas independentes.

Por isso, vivemos num dilema entre o fundamental na universidade e a universidade fundamental para a sociedade. Para superá-lo, teríamos que entender o valor do social e cultural da comunidade que envolve a instituição: gerar conhecimento no contato cotidiano com a realidade. Algo bem diferente ao modelo de aprendizagem baseado em repetição, rotina e burocracia.

" A instituição não pode substituir o poder local, mas pode ajudar o município a reconhecer os problemas sociais, auxiliando com a produção do conhecimento e a criação de soluções viáveis e criativas "

Depois da Constituição Federal de 1988, ficou sob a responsabilidade dos municípios elaborar, gerenciar e prestar contas dos projetos existentes na cidade. Mas o elevado processo de emancipação e crescimento dos municípios vem reduzindo a capacidade da prefeitura de enfrentar problemas como na saúde, lixo, violência e educação sozinha. A universidade pode capacitar profissionais em âmbito municipal, colocando-o como ator estratégico para uma melhor gestão pública. A instituição não pode substituir o poder local, mas pode ajudar o município a reconhecer os problemas sociais, auxiliando com a produção do conhecimento e a criação de soluções viáveis e criativas. A universidade poderia capacitar agentes públicos, prestar consultoria à comissões, conselhos, movimentos sociais e ajudar outros grupos de políticas públicas com conhecimento.
Embora já existam ações exemplares em algumas instituições, a maioria raramente corresponde a uma
prática bem estruturada. A extensão geralmente acontece como um movimento para atender demandas emergênciais, como epidemias e catástrofes. Se a extenção fosse bem praticada, ela elevaria a universidade pública ao patamar de uma agência do desenvolvimento regional.

Recebi por e-email do amigo Munir Barakat.

quarta-feira, 2 de março de 2011

BENTO 16 EXONERA JUDEUS DA CULPA PELA MORTE DE JESUS

Na segunda parte de seu livro 'Jesus de Nazaré', pontífice diz que acusação no Evangelho de Mateus teve consequências 'fatais'

iG São Paulo

Foto: AP
Papa Bento 16 dá a bênção durante audiência geral no Vaticano

Na segunda parte de seu livro "Jesus de Nazaré", que será lançado em 10 de março, o papa Bento 16 exonera os judeus de serem os culpados pela condenação à morte de Cristo.

No livro, do qual o Vaticano divulgou alguns capítulos nesta quarta-feira, o pontífice assinala que, quando no Evangelho de Mateus se fala que "todo o povo" pediu a crucificação de Cristo, "não se expressa um fato histórico".

"Como seria possível todo o povo (judeu) estar presente nesse momento para pedir a morte de Jesus?", questiona o papa teólogo, que reconhece que essa errônea interpretação teve consequências "fatais", em referência às contínuas acusações de deicídio aos judeus durante séculos, que propiciou sua perseguição.

Bento 16 acrescenta que a "realidade" histórica aparece mais correta nos evangelhos de João e Marcos. Segundo o bispo de Roma, o verdadeiro grupo de acusadores foram alguns círculos do templo de Jerusalém e a massa que apoiava Barrabás no contexto da anistia pascal.

O Concílio Vaticano 2º (1962-1965), que lançou a Igreja ao século 21, promulgou a declaração "Nostra Aetate", com o fim dos católicos retiraram as acusações de deicídio contra os judeus.

A segunda parte do livro "Jesus de Nazaré" é dedicada à paixão, morte e ressurreição de Cristo, os momentos mais decisivos na vida de Jesus, segundo o papa. A primeira parte de "Jesus de Nazaré", de 448 páginas, foi apresentada pelo Vaticano em 13 de abril de 2007 e nela o pontífice mostrou um Jesus "real", e afirmou que Cristo é uma figura "historicamente sensata e convincente"

DILMA DESMONTARÁ TCU PARA AGRADAR EMPREITEIRAS

Retribuindo as contribuições de campanha e atendendo recomendação de Lula, a presidenta não se cansa de afagar as grandes empreiteiras. Aproveita as “obras” da Copa do Mundo e das Olimpíadas para excepcionalizar a legislação, sob o pretexto de acelerar os projetos. Vai atacar o “problema” em três frentes: reduzir os poderes dos Tribunais de Contas, imobilizar os órgãos de fiscalização ambiental e afrouxar a legislação de licitações. O pior é já se fala que a presidenta pretende transformar em definitivo, a validade dessas imorais medidas transitórias.

Ilustração Toinho de Passira

Dilma também é a mãe das empreiteiras


Fontes: "the passira news" Blog de João Bosco Rabello

No seu blog no Estadão, João Bosco Rabello reporta que “sob o pretexto da Copa de 2014, o governo quer criar um ambiente político favorável à redução dos poderes dos órgãos de licenciamento ambiental e do Tribunal de Contas da União (TCU), vistos como entraves ao ritmo de desenvolvimento das obras de infra-estrutura indispensáveis ao Brasil como país sede do torneio”.

”O governo considera que o TCU exorbita de suas funções ao embargar obras antes de obter explicações para avaliações ainda preliminares sobre possíveis erros ou supostos desvios de dinheiro de projetos em andamento”.

”Também acha excessivo que o tribunal conceda liminares já que sua finalidade é de fiscalização”.

Em defesa do tribunal podemos dizer que a corte quer evitar que uma empreiteira a frente de uma obra superfaturada, por exemplo, continue a receber dinheiro dos cofres públicos. Com a paralização da obra os empreendedores apressam-se em trazer as despesas para valores razoaveis. Sem esses freios, os custos e o adicional de corrupção das obras públicas no Brasil vão para estratosfera.

Na área ambiental, ainda segundo João Bosco Rabello, “a queixa é de excesso de burocratização, lentidão na avaliação técnica para efeito dos licenciamentos e também um rigor político para frear os programas de desenvolvimento nas áreas de infra-estrutura e energia”.

Não se pode brincar com licença ambiental: depois de degradado o ambiente nunca mais será o mesmo. É um caminho sem volta. As pressões são imensas para que não se cuide ecologicamente do progresso sustentável. Lembrar que mesmo a ecologista Marina Silva, não resistiu às pressões, quando a frente do Ministério do Meio Ambiente do Governo Lula, e acabou permitindo a liberação da construção criminosa dos canais de transposição do rio São Francisco.

”Outro alvo é a legislação das licitações que, na visão do governo, também responde, em parte, pela morosidade das obras. Ninguém apresentou uma fórmula, mas persegue-se alguma que torne o processo licitatório mais célere. Há quem defenda a excepcionalização da Lei exclusivamente para 2014 e para os jogos olímpicos de 2016, embora o sonho do governo seja tornar a excessão em regra definitiva.

”A pressão internacional por mais velocidade nas ações, especialmente as destinadas à construção, ampliação e reforma de aeroportos – e de estádios -, aumentou o receio com relação ao rigor da fiscalização como fator de atraso nos compromissos assumidos pelo país”.

“Fontes do governo chegam a lançar suspeitas de manipulação política por parte do tribunal, braço que é do Legislativo e, como tal, fórum ocupado por ex-deputados, senadores e ex-ministros que exerceriam suas funções com interesse partidário”.

“O conflito é antigo e foi exarcebado pelo ex-presidente Lula que fez campanha pública contra o tribunal, acusando-o de manipular ideologicamente as contas, retardando obras que aumentariam a avaliação positiva do governo”.

“Lula chegou a conseguir que sua base parlamentar desembargasse obras que o TCU suspendera.

Segundo o jornalista João Bosco Rabello a estratégia do Planalto é tentar desmoralizar os ministros do TCU, exebindo falhas e tendencias políticas, “para reforçar a tese da politização do órgão” e facilitar redezir seus poderes e independência.

”Políticos da confiança do governo trabalham no levantamento da rotina do tribunal para fragilizá-lo e viabilizar uma mudança no funcionamento do órgão”.

“Os tribunais de contas estaduais também estão na mira, muitos deles já bem vulneráveis por indícios de corrupção ou, no mínimo, de desvios de conduta de alguns de seus integrantes”.

Os petistas, inclui-se aí a presidenta e seu padrinho Lula, têm horror de serem fiscalizados. Pergunta-se, com as regras atuais a corrupção campeia, imagina-se como ficará com as porteiras abertas?

Isso tudo não é novidade, inúmeras vezes aqui no “thepassiranews” anunciamos que a coisa iam ser assim. Vejam os posts sobre esse tema, que já publicamos:

- A mais corrupta Copa da história da humanidade
- Mundial-2014: a roubalheira anunciada
- Convite a corrupção: R$ 4,47 bilhões sem licitação
- Cronograma da corrupção está nos trinques
- FIFA quer isenção total de impostos na Copa de 2014
- Ministério contrata assessoria de porrrrrra nenhuma

BABACAS DEMAIS DA CONTA

Por Dante Mendonça (O Estado do Paraná/Tribuna do Paraná) in blog do cartunista solda

Este ano eu ia sair fantasiado de diabo (já tenho o chifre luminoso, só falta o rabo!), mas devido aos tantos concorrentes decidi sair fantasiado de babaca. Babacas existem de várias espécies. A principal delas foi catalogada pelo cronista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta: “Diz que era um menino de uma precocidade extraordinária e vai daí a gente percebe logo que o menino era um chato, pois não existe nada mais chato que menino precoce e velho assanhado. Todos devemos viver as épocas condizentes com as nossas idades; do contrário, enchemos o próximo”.


Ou seja, o Lalau quis dizer que guri precoce e velho assanhado são duas espécies de babacas.Para catalogar outras espécies de babacas podemos fazer uma série de testes. Num almoço em grupo, por exemplo, quem é o babaca? É quando um dos convidados senta-se numa das pontas da mesa e o babaca não demora a se manifestar:
- Quem senta na ponta da mesa paga a conta!
É o babaca!
Início da madrugada no boteco, alguém pede a saideira e diz.
- Amanhã preciso acordar muito cedo.
O outro se apressa em dizer:
- Amanhã, não. Hoje!
É o babaca!
O colega chega mais tarde no trabalho porque resolve almoçar em casa. Sem saber, você o convida para almoçar e ele esclarece que já almoçou. Aí o babaca da mesa ao lado pergunta:
- Então você já veio comido?
Ainda no trabalho, quando passa um carro da polícia o babaca alerta:
- Se esconda!
É o babaca!
O camarada passa no shopping e compra uma camisa amarela. No outro dia, a voz se ergue lá do fundo do escritório:
- Vai trabalhar no Correio?
É o babaca!
Na semana seguinte, o mesmo camarada também estréia na firma uma blusa incrementada:
- Na loja que você comprou essa blusa também tem pra homem?
É o babaca!
No jantar, a anfitriã anuncia:
- Temos pavês de sobremesa!
- É “pa” vê ou “pa” comê? – pergunta o babaca.
Final de ano, a firma se reúne para o jantar anual. Reveladas as fotografias, aparece um coitado com o famoso chifre na cabeça. Adivinha quem é dono dos dois dedos feitos chifrinhos?
É o babaca!

O babaca no masculino, é claro, porque no feminino o dicionário nos diz que essa é uma das palavras mais feias,e inadequadas, da língua portuguesa.

A etimologia agora não vem ao caso. O que importa ao assunto em tela (essa expressão “em tela” é bem coisa de babaca) é que os babacas estão fazendo o maior sucesso neste começo de ano. Por conseguinte (“conseguinte”, taí outra de babaca), se sair fantasiado de babaca, além do custo zero, o folião tem concretas possibilidades de ser nomeado ministro na quarta-feira de cinzas.

Com todo o respeito à presidente Dilma (que ela até aqui muito merece), mas como tem babaca nesse ministério formado na base de sustentação do governo! É demais da conta!

REAJUSTE DO BOLSA FAMÍLIA É BOM ATÉ PARA CACHAÇA, DIZ LÍDER

Pinga, cachaça, branquinha, marvada...

MARIA CLARA CABRA-de Brasília - Folha.com

O líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), afirmou nesta terça-feira que o reajuste no Bolsa Família é positivo mesmo se o dinheiro for usado para comprar cachaça, como forma de "ajudar a economia".

De acordo com o deputado, o benefício é um dinheiro sem intermediação política. "O cidadão vai ao banco e pega seu dinheiro, compra pão para sua família, compra os gêneros de primeira necessidade", disse.

Dilma anuncia reajuste de até 45,5% a beneficiários do Bolsa Família

"Eles [a oposição] brincavam dizendo que o chefe de família ia lá e comprava cachaça. Não vamos incentivar isso, mas, mesmo que uma família compre uma cachaça por mês, são 11 ou 12 milhões de garrafas de cachaça. Isso ajuda toda a economia", completou.

"Se cada um comprar uma garrafa de água, são 12 milhões de garrafas, então a oposição não entendeu o Bolsa Família", disse ainda o líder do governo.

A afirmação foi dada após críticas de líderes do DEM e do PSDB ao reajuste médio de 19,8% aos beneficiários do programa.

"A presidente quis arrumar uma boa notícia para tentar neutralizar a repercussão da gastança herdada do governo petista anterior", disse o líder do PSDB, Duarte Nogueira (SP).

Em resposta a Vaccarezza, Caiado disse: "é deprimente que o governo fale isso, ele está prestando um desserviço à população".

(Com um aliado habilidoso como esse no início de seu governo, Dilma não precisa se preocupar tanto com a oposição.)

Imagem da Internet - fotoformatação (PVeiga).

terça-feira, 1 de março de 2011

ETA PORRADA SEGURA

FREI BETTO, Consumo, logo existo

Ao visitar a admirável obra social do cantor Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças. "Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse. O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acimade sua utilidade.Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável. É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais - manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é b laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico. A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela.Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos "Manuscritos econômicos e filosóficos" (1844), ele constata que "o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós." O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão.Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígene cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém. Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinhoguardado na adega, uma jóia? Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso estilista a gata borralheira transforma-se em Cinderela. Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder. Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc. Comércio deriva de "com mercê", com troca. Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas. Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira. Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo. "Nada poderia ser maior que a sedução" - diz Jean Baudrillard - "nem mesmo a ordem que a destrói." E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja. Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo. "Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".

MOMENTOBRASILCOM.COM-(Comentário):
Alô consumistas!!! aqueeeeele abraaaaçooooooo!!!
Imagem da Internet (Google)-fotoformatação (PVeiga).