quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

MADEIRA-MAMORÉ: FERROVIA DO DIABO (CAPÍTULO IX)

Hiram Reis e Silva, Manaus, AM, 18 de janeiro de 2012.

Seus trilhos são de ouro e cada dormente representa uma vida humana. (Anônimo)

Alguém querendo criar uma frase de efeito teria dito a célebre frase “seus trilhos são de ouro e cada dormente representa uma vida humana” e a partir de então este falso chavão vem sendo repetido por populares e intelectuais descuidados. Na verdade uma breve análise dos fatos mostraria que a famosa expressão não tem nenhum fundamento. Infelizmente são diversas as citações de autores nacionais e estrangeiros que buscaram amparo na falaciosa frase ao longo da história brasileira e a revigoraram.

- Seus Trilhos são de Ouro

Considerando o câmbio da época, com 62.000 contos de réis podiam-se adquirir 28 toneladas de ouro. Desde que os trilhos pesavam 25 quilos por metro, chegamos à conclusão de que se os trilhos fossem de ouro, com as 28 toneladas deste metal, ter-se-iam 1.120 metros. Dividindo-se por dois (logicamente os trilhos são colocados aos pares), teríamos uma extensão de 560 metros de ferrovia, com trilhos de ouro. Entretanto, a extensão da Estrada é de 366.000 metros. (Manoel Rodrigues Ferreira)

- Cada Dormente Representa uma Vida Humana

Em 1942, o Sr. João da Costa Palmeira, no seu livro “Amazônia”, disse:

Cada dormente representa uma vida que ali se extinguiu, tal foi o tributo pago pelos trabalhadores, em geral nordestinos, que ali ultimaram seus dias.

Em 1959, o Sr. Benigno Cortizo Bouzas, no seu livro “Del Amazonas al Infinito”, afirmou:

Se dice que hubo tantos muertos como traviesas tiene la via.

A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré tinha uma extensão de 366 km, considerando que em cada quilômetro foram assentados 1.500 dormentes chegaremos, sem grandes dificuldades, a um total de 549.000 dormentes. Teriam, realmente morrido 549.000 trabalhadores na sua construção? O relatório da Companhia especifica o número total de operários “importados” e o número de óbitos desde o início das obras até a sua conclusão conforme o quadro abaixo:

Ano

Operários

Óbitos

1907

446

6

1908

2.450

65

1909

4.500

425

1910

6.024

428

1911

5.664

419

1912

2.733

209

Total

21.817

1.552

Evidentemente a estatística da companhia só contempla aqueles que morreram no Hospital de Candelária. Não aparecem nestas cifras os que faleceram depois de abandonarem Santo Antônio e Porto Velho em trânsito para Manaus, em Belém, ou nos seus países de origem. Consideramos razoável estabelecer que este número seja três vezes maior do que o admitido pela construtora. Multiplicando por quatro o total do relatório vamos chegar a 6.208 óbitos muito longe do número de dormentes assentados na ferrovia cuja estimativa é de 549.000. Os óbitos, evidentemente, continuam a ocorrer depois da conclusão das obras, mas em número bem mais reduzido tendo em vista a melhoria das condições sanitárias da região, das melhores condições de trabalho e dos melhores recursos de profilaxia das doenças.

- Livro

O livro “Desafiando o Rio-Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre, na Livraria EDIPUCRS – PUCRS, na rede da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br) e na Livraria Dinamic – Colégio Militar de Porto Alegre.

Para visualizar, parcialmente, o livro acesse o link:

http://books.google.com.br/books?id=6UV4DpCy_VYC&printsec=frontcover#v=onepage&q&f=false.

Fonte: FERREIRA, Manoel Rodrigues – A Ferrovia do Diabo – Brasil – Edições Melhoramentos, 1959.

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA); Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS); Vice- Presidente da Academia de História Militar Terrestre do Brasil - RS (AHIMTB - RS); Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS); Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional.

Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br

E-mail: hiramrs@terra.com.br

Blog: http://www.desafiandooriomar.blogspot.com

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