Hoje nosso amigo colaborador Luiz Antonio Domingues narra
a história da lendária banda Patrulha do Espaço, e conta um pouco da sua
significativa passagem pela banda, resgatando o rock setentista já em pleno
século 21.
Boa viagem tripulantes!
A Patrulha do Espaço foi
fundada em 1977 e seu primeiro concerto foi em grande estilo : Em setembro, no
Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, num Festival de Rock Latino-americano,
onde artistas brasileiros e argentinos, dividiram o palco num festival que entrou
para a história do Rock brasileiro.
É bem verdade que Arnaldo Baptista
havia insinuado a criação da banda anteriormente, com a formação da "Space
Patrol" em 1974, junto ao Zé Brasil, futuro líder do
"Apokalypsis".
Mas como a banda não teve
continuidade e tendo ficado circunscrita a poucas apresentações, é essa
formação de 1977, considerada como o ponto inicial da Patrulha do Espaço,
formalmente.
Em sua primeira formação,
contava com Arnaldo Baptista nos teclados e voz; Rolando Castello Junior
na bateria; Osvaldo "Cokinho" Gennari no baixo e John Flavin, na
guitarra.
Nesses tempos setentistas,
toda a orientação artística ainda era calcada na sonoridade 60/70, sob
influências óbvias e muito boas, naturalmente.
Arnaldo deixou a nave ainda
em 1978, mas o Junior não esmoreceu e assumiu a cabine de piloto.
Saiu também o guitarrista
John Flavin e com Eduardo "Dudu" Chermont assumindo as seis cordas, a
Patrulha estabeleceu-se como power-trio, avançando por 1979 e 1980, alheia à
fase terrível de derrocada do Rock brasileiro, sob ventos tenebrosos que
sopravam da Europa, anunciando tempos difíceis para quem gostava da sonoridade
e estética cultural/comportamental das décadas de 1960 e 1970.
Em 1980, lançou com muita
ousadia, um LP independente, que era um escândalo para a época, pois a pressão
das gravadoras era massacrante e um ato desses era considerado uma rebeldia
inadmissível, gerando até boatos sobre elas, gravadoras, buscarem elementos
jurídicos para impedirem o lançamento de artistas independentes.
Sai o baixista Cokinho e entra Sergio Santana em
seu lugar, dando prosseguimento ao trabalho.
Heroicamente, fazendo das
tripas coração, o trio lança mais três discos e tem uma chance de ouro ao abrir
os três shows do Van Halen em São Paulo, no início de 1983.
Abro
um parêntese para destacar que quando iniciei minhas atividades com "A
Chave do Sol", conheci o Junior ainda na metade de 1982.
No
primeiro show da Chave do Sol, o Junior emprestou-nos um pedaço do equipamento
de P.A. da Patrulha do Espaço, para que pudéssemos nos apresentar com
qualidade.
Assisti
dois desses concertos do Van Halen e a abertura da Patrulha do Espaço foi muito
boa nas duas ocasiões, arrancando aplausos da plateia de 12 mil pessoas
aproximadamente, em cada noite.
Em
julho de 1983, A Chave do Sol realizou o show de abertura da Patrulha do Espaço
num clube em Limeira, interior de São Paulo. Ficamos encantados e gratos pela
oportunidade de podermos tocar para 3500 pessoas, naquela noite gelada de
inverno.
Infelizmente,
no final de 1984, A Patrulha do Espaço teve um rompimento com a sua formação
estável, perdendo o ótimo guitarrista, Dudu Chermont.
Mas
o Junior sempre foi um abnegado e não deixando a peteca cair, engendrou um novo
álbum, trazendo da Argentina, Pappo Napolitano, um dos maiores guitarristas do
Rock latino-americano e assim, em 1985, lança um novo disco, dando mostras de
que a nave permaneceria em voo regular.
Infelizmente, a meu ver, apesar de
contar com um guitarrista monstruoso, a banda enveredou por um caminho
espinhoso ao tentar adequar-se ao mercado de metade dos anos oitenta e esse
disco de 1985, tem esse espírito mezzo Heavy-Metal, que me desaponta, como fã.
E
assim, a banda deu uma esmorecida e só no final dos anos oitenta, voltou com
força e estilo. Recrutaram Rubens Gióia, meu ex-companheiro de "A Chave do
Sol" e como trio, resgatando a sonoridade clássica, parecia estar voltando
ao seu voo seguro, quando um duro golpe aconteceu, com o falecimento prematuro
do baixista Sergio Santana.
Sem
forças para continuar, Junior ainda tentou fazer uma nova formação em 1992 e
assim lançou um LP, denominado "Primus Inter Pares", homenageando o
baixista Sergio Santana.
Contando
com Rubens Gióia, Junior recrutou o vocalista Percy Weiss; o excelente baixista
Renê Seabra e mais um guitarrista, o jovem Xando Zupo, que anos mais tarde
viria a se tornar meu companheiro no "Pedra".
O
disco é muito bem tocado, mas peca por dois aspectos, em minha opinião: 1) Tem
arranjos puxados para o Heavy-Metal oitentista, demais para o meu gosto e; 2)
Tem poucas músicas inéditas, com a maioria, composta de regravações do próprio
material da Patrulha, requentando-o e maltratando-o no sentido estético.
Depois
disso, o Junior armou formações sazonais para shows, mas só em 1999 surgiu uma
oportunidade de dignificar para valer, o valor dessa nave.
Eu
entro aí, nessa história.
Em
1996, eu estava no "Pitbulls on Crack" , uma banda de Indie Rock,
basicamente, mas que tinha uma forte influência do Glitter Rock setentista.
Eu
já vinha há anos ensaiando me reaproximar enfim da sonoridade e estética que
tanto amo, ou seja, a das décadas de sessenta e setenta.
E
o CD que lançamos em 1996, trazia em seu aparato mercadológico, toda uma aura
sessenta-setentista, muito em função da pressão que exerci nas reuniões de
brainstorm com a banda e os marqueteiros da gravadora Primal/Velas.
Mas
apesar disso, o "Pitbulls on Crack" não era a plataforma adequada
para eu exercer esse resgate que ansiava, em sua totalidade.
Por
isso, apesar de ser muito amigo dos companheiros, sai da banda e fui me
empenhar em buscar esse sonho.
Parecia
uma coisa insana sair de uma banda que tinha gravadora, vídeo clips, execução
radiofônica e um nome sedimentado no underground após cinco anos e meio de
trabalho, mas eu precisava buscar essa raiz primordial que me motivara a
ingressar na música e havia perdido, desde os anos setenta.
Formei
assim o "Sidharta", com o então adolescente Rodrigo Hid, que
conhecera por ser guitarrista da banda de um aluno meu, desde 1993.
O
"Sidharta" nasceu desse embrião inicial, com o forte propósito de
criar uma estética artística totalmente calcada em ícones sessenta-setentistas.
Queríamos buscar a atmosfera de outrora, não só na sonoridade das músicas, mas
evocando vestuário, cenários, ambientações etc., etc.
Avançamos
por 1998, trabalhando fortemente nesse sentido e após a saída do guitarrista
Deca, que seria membro também, convidamos outro jovem multi-instrumentista e
ultra talentoso membro, chamado Marcello Schevano.
Com
a presença de José Luis Dinola, meu velho companheiro de "A Chave do
Sol", na bateria, fechamos nesse quarteto e por um ano ensaiamos, compondo
21 músicas.
No
início de 1999, o José Luís resolveu não prosseguir e decidimos então procurar
um baterista que vibrasse nessa onda retrô, integralmente.
Convidamos
assim, o baterista Rolando Castello Junior, com direito à uma armadilha que não
cabe contar aqui, mas eu já contei na minha autobiografia (no Orkut -
"Comunidade Luiz Domingues" e em meu Blog 2, em breve), e o Junior
também já contou na visão dele, nas páginas do "Dossiê Volume 4", CD
que contém a história da Patrulha contada por ele em punho, através dos
respectivos encartes dos 4 volumes lançados e há a perspectiva dele lançar um
volume 5.
Então
ele aceitou a briga, mas dissuadiu-nos a usar o nome "Sidharta",
fazendo-nos acreditar que seria muito mais fácil nos lançarmos como
"Patrulha do Espaço", a entrarmos no mercado com uma banda zero km,
em termos de nome.
Claro,
fazia sentido...
Em
março de 1999, começamos a ensaiar e incorporamos quase todo o repertório do
"Sidharta" como material novo da Patrulha do Espaço, mesclando-o ao
repertório clássico da banda.
O
Junior adorou a proposta e foram momentos de muita alegria para mim, pois além
de eu estar trabalhando em prol do meu sonho rocker 60/70, alegrava-me ser um
agente no resgate da própria banda em favor de suas raízes.
Era
um prazer estar colaborando para a Patrulha voltar às suas origens e logo de
cara, o fato de Rodrigo Hid e Marcello Schevano serem ambos guitarristas e
tecladistas, proporcionou à Patrulha, a oportunidade de resgatar o repertório
da época do Arnaldo Baptista, material que a banda não tocava desde 1978,
quando da saída do próprio Arnaldo.
E
logo no primeiro show, surpreendemos os fãs que estavam acostumados aos últimos
tempos da Patrulha com o som pesado que faziam há anos e tocando um repertório
de clássicos da banda, à moda original, sem ranços oitentistas, resgatamos uma
aura hippie, há muito perdida.
As
músicas novas agradaram em cheio; a possibilidade de tocar várias da época do
Arnaldo, idem.
Mas
não era só isso...
Os
shows pareciam um túnel do tempo, com detalhes que passamos a adotar e que
encantavam o público de observação mais arguta.
Para
início de conversa, nossos shows tinham o odor dos incensos. Resgatamos com
força esse hábito há muito esquecido no Rock brasileiro e quando o público
entrava no ambiente onde tocaríamos, não importando se era uma casa noturna,
salão ou teatro, queimávamos dúzias de incensos.
Mesmo
lutando contra a falta de recursos para fazermos produções sofisticadas, nos
esmerávamos em compor cenários, verdadeiras tendas hippies que muito lembrava a
atmosfera de shows nos lendários auditórios Fillmore.
Usamos
projeção de bolhas psicodélicas, ainda que primitivamente, por falta de
recursos melhores; caprichávamos no figurino "hippie Chic", tínhamos
flores sempre que possível...
Pequenos
detalhes cênicos também faziam parte de nossos esforços. Ornamentos em cima dos
amplificadores, pelos cantos do palco e sobre teclados e praticável de bateria,
iam de estátuas de Deuses orientais à um porta-retratos com a foto de Timothy
Leary; Castiçal de velas à echarpes de seda, jogadas e até um boneco de um ET
em tamanho natural, foi usado certa vez, causando um efeito visual chamativo.
Eram
tempos anacrônicos e indiferentes a essa estética e nem sempre o público
entendia sequer o significado de tudo isso.
Lembro-me
por exemplo de um programa de TV ao vivo, onde a despreparada apresentadora
achou engraçado o porta-retratos com a imagem de Tim Leary em cima do órgão
Hammond, e inquiriu-me a respeito, mas simplesmente ignorou a minha
explicação...
Enfrentamos
públicos alheios e às vezes até hostis...
Lembro-me
de um show em 2001, para uma grande multidão, onde as principais atrações eram
duas bandas: uma famosa nos anos oitenta e outra que era a crista da onda no
início dos anos 2000 e tinha estética agressiva e portanto antagônica aos
nossos ideais. Dessas de moleques de bermudas, som agressivo e letras recheadas
de palavrões...
Quando
subimos ao palco, ouvimos vários insultos do público dessa tal banda, e bastava
olhar para eles e ter a certeza de que nunca ouviram falar de Beatles, Jimi
Hendrix, Janis Joplin...
Mas,
tivemos também momentos de enorme satisfação. Foram várias vezes que tivemos a
surpresa agradável de ter público antenado. Em muitas cidades interioranas de
São Paulo e principalmente nos três estados do Sul do país, encontramos plateias
extremamente jovens, com a garotada vibrando como se vivesse em 1968, ansiando
por aquela sonoridade e reconhecendo todo o nosso esforço em reproduzir essa
atmosfera mágica, em todos os sentidos.
Não
foram poucas às vezes onde saí do palco profundamente emocionado com a recepção
de um público muito jovem e querendo viver esse sonho, como se estivessem
vivendo a época, de fato.
E
assim, gravamos três discos de estúdio ("Chronophagia", em 2000;
"Compacto", em 2003 e "Missão na Área 13", em 2004). Houve
também no meio do caminho, o lançamento da coletânea,"Dossiê Volume 4” (em
2001), onde o Junior estava contando toda a história da banda, tendo lançado os
três primeiros volumes anteriormente e nesse n° 4, há o início da história da
formação de 1999, comigo e os talentosos Hid e Schevanno.
E,
mesmo quando essa formação desmanchou-se em 2004, ainda houve um lançamento
póstumo, com "Capturados ao Vivo no CCSP", em 2005, um CD ao vivo,
obtido de shows realizados em 2004, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), nos
estertores dessa formação.
A
nave da Patrulha prosseguiu com formações improvisadas, mas mantendo-se no ar,
até chegar na formação atual, onde lançou no ano passado (2012), um novo CD de
inéditas, denominado "Dormindo em Cama de Pregos". É uma boa e sólida
formação e conta com um jovem guitarrista, um desses caras sensacionais que
vibravam o sonho 60/70 e que conhecemos na estrada em 2001, chamado Danilo
Zanite.
Que
siga em frente com muita sorte, mantendo a chama do Rock, acesa.
De
minha parte, foi assim a minha participação entre 1999 e 2004, onde apesar das
dificuldades, exerci o sonho e me senti numa banda de Rock à moda antiga,
cercado de ícones contra culturais que amo, fazendo uma música carregada de
"Boas Vibrações Aquarianas"...
Só
faltou tocar no auditório Fillmore, mas ainda tenho esperança de ter esse
prazer quase messiânico. (Limonada Hippie)
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