segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

OS RELACIONAMENTOS, O TÊNIS E O FRESCOBOL

Por João Bosco Leal

Recebi um e-mail com um texto de Rubem Alves, educador, escritor, psicanalista e professor emérito da Unicamp, comparando os relacionamentos ao tênis e ao frescobol, que, apesar de terem em comum o fato de serem jogados por duas pessoas, com duas raquetes e uma bola, possuem diferenças enormes.

O autor se explica dizendo que o relacionamento baseado na cama, nos prazeres, se esgota rapidamente e quando termina, ao amanhecer, normalmente deixa mágoas e ressentimentos. Assim é o tênis, onde o jogo acaba quando seu parceiro, chateado, perde por não conseguir pegar as bolas que você joga.

Já no frescobol, se um dos jogadores erra, acaba o jogo e, como o interesse é outro, o de jogar, e não de fazer com que o jogo acabe, passa a existir uma cumplicidade entre os jogadores de frescobol, que faz com que mesmo quando a bola chega errada, longe, difícil de ser rebatida, é devolvida com todo o cuidado para que o outro participante do jogo possa pegá-la e, assim, continuar o jogo.

Comecei a pensar nos relacionamentos sob essa ótica, e penso que o autor do texto está repleto de razão, mas, mesmo concordando, nunca havia pensado assim, comparando os casamentos, relacionamentos ou sentimentos com esportes, para dar maior visibilidade aos mesmos, e assim poder entendê-los melhor, ou mesmo para jogar melhor o jogo da vida.

Quando jovens, só pensamos no físico, nos prazeres, e não estamos maduros o suficiente para nos perguntarmos se aquela pessoa seria a pessoa com quem gostaríamos de conversar pelo resto de nossas vidas. Não nos lembramos, em nenhum momento, que o físico, assim como as plantas, os animais e as árvores, têm um ciclo de vida, que nascem, crescem, geram sementes, amadurecem, murcham e morrem.

O mesmo ocorre com o ser humano. Nosso corpo, após a fase jovem, também amadurece, gera filhos e depois amolece, cria rugas, celulites, barriga, perde os cabelos e fica careca. Não enxerga nem ouve com muita facilidade, fazendo com que seu interlocutor tenha que repetir as palavras para se fazer entender, isso quando alguns desses eventos não ocorrem antes mesmo de cumprirmos todo o ciclo.

O relacionamento baseado no físico não suportará essas diferenças que certamente ocorrerão. Nessa fase, precisamos ser jogadores de frescobol, e não de tênis. Precisamos ajudar nosso parceiro a continuar jogando conosco, e não procurar seu ponto fraco, para enviar uma bola exatamente naquele ponto, indefensável para ele.

Precisamos aí estar preparados para jogar bem, diretamente ao nosso parceiro, com leveza e pouca velocidade, para que ele possa rebater a bola com facilidade e também de modo a que possamos recebê-la bem e assim continuarmos jogando, cada vez mais divertidamente e com prazer. Será o prazer de estarmos jogando com quem escolhemos para sorrir juntos, que nos acompanha na tristeza quando erramos e na alegria quando acertamos cada bola do jogo da vida.

Só quando mais maduros conseguimos entender esse processo inevitável, e perceber que na velhice poderemos viver uma fase ainda mais bela, não física, mas de amizade, carinho, compreensão e cumplicidade. Que as rugas, os cabelos brancos ou as carecas certamente nos proporcionarão muito mais do que um belo corpinho vazio. O prazer proporcionado por um é de minutos, enquanto o outro é de décadas.

Um comentário:

Juma Durski disse...

Muito bom Pedro. Parabens!