segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

PORTINARI, A VOLTA DO PINTOR DO POVO

“Estou com os que acham que não há arte neutra. Mesmo sem nenhuma intenção do pintor, o quadro indica sempre um sentido social”.

Cândido Portinari

Após 54 anos o imenso quadro Guerra e Paz está de volta ao Brasil, em exposição prevista até 2013 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Guerra e Paz deixa a sede da ONU – Organizações das Nações Unidas em Nova Iorque e poderá ser vista pelos brasileiros. Configurada a sua inclinação muralista, Portinari necessitou de andaimes para pintar Guerra e Paz, iniciado em 1952 e concluído em 1956, medindo cerca de 14x10.

- Nós estamos planejando levar os paineis a Hiroshima,estou articulando para que o prêmio Nobel da Paz em 2012, na Noruega seja entregue na frente dos paineis-disse João Cândido Portinari, filho do artista e presidente do Projeto Portinari, à Rádio ONU como será o trajeto internacional.

Além da inegável importância do quadro posto na sede da UNU, presente do governo brasileiro, e do retorno ao Brasil na referida exposição, é oportuno ressaltar que os Estados Unidos impediram Portinari de entrar naquele País pelo fato de ser comunista. A pergunta foi feita ao pintor e ele confirmou ser comunista.

Influenciado pelo líder Luiz Carlos Prestes, a quem admirava muito, Portinari se filiou ao Partido Comunista Brasileiro. Pelo PCB e para ajudar ao partido e contribuir pela volta da democracia, Portinari se candidatou a deputado federal em 1945 e no ano seguinte para o Senado, sem sucesso eleitoral. O posicionamento político-partidário não o impediu inteiramente de projetar a arte dele mundo afora, mesmo diante de tais obstáculos.

Outro registro fundamental sobre a vida e a obra de Portinari tem a ver com o também comunista Oscar Niemeyer. O arquiteto, de antes projetar Brasília, fez o conjunto arquitetônico da Pampulha de Belo Horizonte, Minas Gerais, a pedido do então prefeito Juscelino Kubitschek. Niemeyer convidou Portinari para realizar a decoração de tais espaços. Assim sendo, São Francisco e a Via Sacra, na Igreja da Pampulha, reforçaram o caráter social e trágico das obras de Portinari. São Francisco é retratado num cenário brasileiro onde aparecesse próximo ao Santo um cão vira-lata pintado como expressão da miséria da nossa gente. Somando-se o sentido daquelas obras e o posicionamento político, a Igreja Católica recusou a usar a famosa capela, “idealizada por dois comunistas!”, disseram. Hoje os noivos, mesmo não se casando lá, se dirigem até ela para orarem e tirar fotos.

O trágico era uma forte expressão da arte de Portinari, que o diga Retirantes, pessoas fugindo da seca, pelas estradas poeirentas e áridas com seus poucos pertences, esquálidas. Pintou também os negros e há neles uma particularidade que chega inicialmente a comprometer a chamada estética. Nos quadros sobre as fazendas de café, os pés e braços dos escravos estão pintados enormes e, portanto, desproporcionais ao corpo. Ao ser perguntado sobre qual o sentido, Portinari afirmou que era o olhar sob a ótica dos senhores dos escravos, “o que lhes interessava nos negros era a força bruta empregada para a exploração vil, braços, pernas e pés tinham valor como mão-de-obra”.

Guerra e Paz, após ficar pronto pelo mais expressivo artista brasileiro, só foi visto pelo próprio Cândido Portinari uma única vez, logo após terminá-lo. Ele morreu logo em seguida, em 1962 no Rio de Janeiro, seis de fevereiro, em consequência da progressiva intoxicação proveniente do contato com as tintas usadas nas pinturas. Portinari foi advertido pelos médicos do perigo iminente, no entanto, disse o pintor, “estão me impedindo de viver”.

A referida exposição aberta em dezembro, faz lembrar outro dezembro, o dia 29 de 1903, ano de nascimento do pintor, no interior de São Paulo, na pequena Brodósqui, filho de imigrantes italianos, numa fazenda de café. O café e o meio rural da infância seriam comumente retratados nas suas mais importantes obras.

Imagens da Internete - fotoformatação (PVeiga).

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