sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O CONTINENTE DO SÉCULO XXI

No admirável Pós-Guerra, o inglês Tony Judt traça um amplo painel da história recente, do início da Guerra Fria à União Européia


De Gaulle (no centro, de uniforme) celebra a libertação de Paris, em 1944: primórdios de um novo modelo europeu
Por Rinaldo Gama
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Trecho do livro

Ser contemporâneo dos fatos que pretende estudar pode representar uma perigosa armadilha para o historiador. Apesar de saber disso, muitas vezes ele não resiste ao empuxo de certos episódios do presente, que saltam da condição de meros acontecimentos para se alojar no patamar da história. Foi o que ocorreu em 1989 com o inglês Tony Judt – um intelectual londrino formado no King’s College e na École Normale Supérieure, e hoje professor titular de estudos europeus na New York University. Enquanto fazia uma baldeação no movimentado terminal ferroviário de Viena, proveniente de Praga, Judt teve a idéia de escrever um livro que sintetizasse a história européia entre 1945, quando as forças aliadas venceram o embate contra as potências do Eixo, e os tumultuados dias que estava vivendo. A inspiração não era gratuita – na capital checa, ele acabara de presenciar a derrocada do regime comunista. A resposta de Judt ao seu próprio desafio veio à tona em 2005 sob a forma do extraordinário Pós-Guerra – Uma História da Europa desde 1945 (tradução de José Roberto O’Shea; 880 páginas; Objetiva; 79,90 reais), que chega agora às livrarias brasileiras.

O historiador reconstitui um período complexo e decisivo – sessenta anos de história, da derrota do nazi-fascismo à consolidação da União Européia, passando pelos anos da Guerra Fria – em um texto fluente e esclarecedor. Didático, ele se demora nos capítulos referentes aos projetos de reconstrução da Europa, uma terra devastada em 1945, com recursos do bem urdido Plano Marshall (1948-1951). Segundo Judt, para os europeus, o maior impacto do programa difundido pelo ex-secretário de estado americano George Marshall foi psicológico – a confiança na idéia de que era possível recomeçar –, embora os gastos tenham chegado a 13 bilhões de dólares (hoje, calcula o historiador, seriam 200 bilhões). Nesse vasto painel histórico, o ponto forte é o relato da desintegração do comunismo na Europa, que culminou com o desaparecimento da União Soviética. Ao contrário de historiadores como o americano John Lewis Gaddis, notável estudioso da Guerra Fria, Judt não atribui a Ronald Reagan nem ao papa João Paulo II o lugar de atores-chave da debacle comunista. Para o autor de Pós-Guerra, a figura central do processo foi o ex-líder soviético Mikhail Gorbachev. "Ele não planejou os eventos e apenas vagamente entendia a importância dos fatos a longo prazo. Mas permitiu e precipitou os acontecimentos", enfatiza Judt, convencido de que os Estados Unidos não derrubaram o comunismo – ele "implodiu sozinho".

Pós-Guerra, adverte modestamente o autor, não traz nenhuma "grande teoria" a respeito da Europa atual. Mas mostra como o continente outrora imperialista forjou um novo modelo político, econômico e social que, consubstanciado na instituição da União Européia, pretende servir de parâmetro para o resto do planeta. Esse "modelo europeu" contempla mecanismos para regular as relações (muitas vezes complicadas) entre os diferentes estados-membros e, sobretudo, tenta conciliar o poder do estado e a liberdade econômica, numa alternativa ao liberalismo mais ortodoxo do "modelo americano" – assim como o estilo de vida à moda européia rivaliza com o american way of life. Se tal fórmula for bem-sucedida, é possível que "o século XXI seja o da Europa", diz Judt. Otimista em relação à força da história, o autor faz uma profissão de fé na ciência a que se dedica: "Se em anos vindouros quisermos nos lembrar por que nos pareceu tão importante construir um determinado tipo de Europa a partir dos crematórios de Auschwitz, somente a história poderá nos ajudar. A União Européia pode ser uma resposta à história, mas jamais poderá ser uma substituta", ensina.

Três faces da Europa

Avaliações do historiador Tony Judt sobre líderes
que marcaram a segunda metade do século XX

Charles de Gaulle, presidente da França de 1958 a 1969
"Tinha um estilo tradicional e um declarado descaso pelos detalhes do planejamento econômico. Os adversários atacaram a maneira pela qual o general exercera o poder, mas os recursos e ornamentos de um poder presidencial irrestrito agradaram aos sucessores do general, de todas as inclinações políticas."

Hulton Archive/Getty Images
François Lochon/Time Life
Pictures/Getty Images

Margaret Thatcher, primeira-ministra da Inglaterra de 1979 a 1990
"Seu fascínio era inegável. Uma surpreendente variedade de estadistas durões confessava, extra-oficialmente, achá-la sensual. François Mitterrand, bem versado no assunto, a descreveu como tendo ‘olhos de Calígula e boca de Marilyn Monroe’."

Mikhail Gorbachev, o último secretário-geral do partido comunista soviético, de 1985 a 1991
"O feito de Gorbachev foi inusitado. Nenhum outro império registrado pela história abandonou seus domínios de maneira tão súbita. A Gorbachev, diretamente, não pode ser atribuído o crédito pelo que ocorreu em 1989. Mas ele precipitou os acontecimentos. Foi a revolução de Gorbachev."

Fonte: Revista VEJA.

Um comentário:

Juma Durski disse...

Muito bom Pedro!
Parabens!
Abraço do amigo Juma Durski