terça-feira, 22 de março de 2011

HISTÓRIA E HISTORIOGRAFIA

Por Rafael Fernando Hack, doutorando em filosofia

Clio, a musa da História, por
Pierre Mignard (1689)

Existe uma diferença de ordem quase “ontológica” entre História e Historiografia. A História, compreendida como ciência, abarca diversas tendências historiográficas, frequentemente, de inspiração ideológica e política. Os fatos são submetidos a prismas distintos o que, invariavelmente, corrobora a formação de perspectivas históricas conduzidas.

Tendências historiográficas surgidas no século XIX, embasadas pelo pensador alemão Leopold Von Ranke, sugerem, fundamentalmente, que os fatos historiográficos devem ser isentos de interpretação exteriores a eles mesmos. E, além de Ranke, o pai da sociologia, August Comte, também se mostrou partidário deste procedimento que posteriormente, convencionou-se chamar de escola metódica (embora muitos Historiadores de formação acadêmica optem por designá-la como Positivista), a qual vigorava preponderantemente durante a primeira metade do século XX no Brasil.

História, do pintor grego Nikolaos Gysis (1892)

A escola metódica pautava-se fundamentalmente nos documentos dispostos pelos órgãos oficiais e pela sua respectiva e fiel exegese. O que resta, entretanto, questionar é: quais as condições para a criação de tais documentos, sua legitimidade e os regimes de saber-poder que os autenticam. Este é o verdadeiro papel do historiador: questionar as fontes, observar suas condições históricas de legitimidade.

Relatar fatos, evidenciar acontecimentos em sua espessura própria é mais atividade de jornalista do que propriamente de historiador. O diletantismo cultural, embora completamente louvável, deve reconhecer os seus limites. Testemunhar um período histórico, um fato ou um relevante acontecimento nada acrescentam a consciência histórica se não forem devidamente analisados através dos meios que os noticiam.

As tendências historiográficas presentes nos regimentos escolares hoje, são evidentemente destoantes daquelas que outrora coloriam os manuais. A historiografia contemporânea estende sua crítica para além da lisura do documento disposto. A História das mentalidades, das ideias e, em suma, a nova história cultural de orientação francesa são testemunhas disso.

Diferentemente do que sugerem algumas opiniões a História hoje não está fadada a um relativismo superficial, mas sim pautada na análise. O que acaba por conferir seu novo estatuto epistemológico.

Deste modo, devemos observar 1964 através de um prisma crítico abstendo-nos de noções pouco confiáveis como “povo ordeiro”, “pessoas de bem” etc. Quem eram efetivamente essas pessoas? Que parcela da sociedade representavam? Quais seus interesses na presença dos militares no governo? – Essas, de fato, são questões levantadas por um Historiador!

Bibliografia

REIS, José Carlos. A História entre a filosofia e a ciência. São Paulo: Ed. Ática, 1996.

VINFAS, Ronaldo. Os protagonistas anônimos da História: Micro-história. Rio de Janeiro: Campus, 2002.

Acrescentei:

Lenin dirige-se ao Exército Vermelho em 1920. Trotsky aparece mais abaixo à sua esquerda, à direita da foto.
Com Stalin, o passado já não é o que era: Trotsky não sai na foto…

A utilização da historiografia para falsear a história é tão antiga como a própria disciplina (que teria que remontar pelo menos a Ramsés II e à Batalha de Kadesh), mas no século XX a capacidade que o Estado e os meios de comunicação de massa (chamados de quarta potência) alcançaram, permitiram aos regimes totalitários jogar com a capacidade de mudar a história, não só em direção ao futuro, mas para o passado. A novel 1984 de George Orwell (1948) é um testemunho de que isso era credível. As fotografias retocadas foram uma especialidade, não apenas de Stálin contra Trotski, mas de Franco com Hitler. O próprio Winston Churchill tinha claro, mesmo dentro da democracia, que "a História será amável comigo porque tenho a intenção de escrevê-la". Refletir sobre se a história é escrita pelos vencedores é uma tarefa mais própria da filosofia da história.

A verdade é que, na história, tudo muda, nada é permanente, e muito menos a sua ocultação, como evidenciado pelo debate sobre a escalada da malignidade, entre a esquerda e a direita, que ainda dará tantos livros como o de Stéphane Courtois ("O livro negro do comunismo", 1997). (Veja em Wikipédia 1 e 2).

Imagens Wikipédia - fotoformatação (PVeiga).

Um comentário:

Juma Durski disse...

Excelente matéria!