sábado, 1 de janeiro de 2011

DESAFIANDO O RIO-MAR – COMUNIDADE MAUARI/ITACOATIARA

Hiram Reis e Silva, Itacoatiara, AM, RS

“Em cada margem que passa

Outra estou a conquistar

O futuro não se teme

Quando se está a amar”.

(Ana Paula Filipe)

Partida para Mauari

(24 de dezembro de 2010)

Acordei às cinco horas e me preparei para uma rápida jornada que eu pretendia encerrar antes das onze horas na Comunidade Novo Horizonte, localizada na foz, a jusante, do Paraná da Eva, a apenas 56 quilômetros de distância. Os botos tucuxis por várias vezes evoluíram graciosamente nas proximidades do caiaque, proporcionando momentos de puro encantamento. Volta e meia o foguetório quebrava a tranquilidade que me cercava, anunciando os festejos natalinos. As águas continuavam calmas e consegui manter a média de 6 nós (aproximadamente 11 km/h). Fiz uma parada para descanso na Ilha Juara a Sudeste da Ilha Grande da Eva, onde um bando de aproximadamente doze alegres botos tucuxis pescavam; imediatamente o Comandante Mário determinou que o Vieira Lopes viesse, com a voadeira (barco de alumínio), verificar se havia algum problema.

Chegamos antes das onze ao destino original, mas o Comandante do Piquiatuba, Soldado Mário, achou melhor buscar um porto mais seguro à jusante. Depois de navegarmos alguns quilômetros ele decidiu lançar a voadeira com seu motor de 40HP para agilizar o reconhecimento e, finalmente, localizou um porto adequado na foz do pequeno igarapé Mauari. Cheguei à comunidade por volta das 12h30 depois de navegar mais de 70 quilômetros, por sete horas.

Porto do Mauari

A foz possuía profundidade adequada para abrigar a grande embarcação de apoio, a montante e à jusante o porto era protegido por curiosos paredões de pedra que abrigavam um aprazível balneário de areias brancas. Depois da rotina de cuidar do caiaque, lavar a roupa e tomar um bom banho a bordo fomos visitar o professor Beque, um dos líderes da comunidade, que autorizara nossa aportagem.

Professor Beque, o Forest Gump do Mauari

O professor de 53 anos fez curso de magistério, marítimo da marinha mercante e auxiliar de saúde que é muito empregado em apoio aos membros da Comunidade do Mauari. Beque relatou que a Comunidade foi formada por descendentes do Capitão Mariano Teixeira que fugiu de Portugal quando Napoleão Bonaparte declarou guerra aos lusitanos e se radicara no Mauari, Costa do Amatari. O professor amazonense afirma que é produto da miscigenação de portugueses da família Quirino com índias da etnia Mura e que cada patriarca tinha duas ou três esposas fazendo com que a descendência crescesse rapidamente.

Beque relata que: “a Fazenda Muari é um local bonito e pitoresco. Na foz do igarapé temos uma laje de pedra de ambos os lados e no centro uma praia que é usada como balneário. Na ponta da laje de jusante existe uma formação que lembra um rosto feminino e é conhecida como Maria Mococa. Em uma oportunidade veio um pessoal de Manaus e uns amigos depois de tomarem umas ‘geladas’ foram até a praia e não retornavam. A esposa de um deles, ansiosa, me perguntou se havia algo interessante na beira para que o marido demorasse tanto e se havia alguma coisa que pudesse pegá-lo. Respondi que tinha uma mulher de pedra e ela entendeu que tinha uma mulher nas pedras e ficou cheia de ciúmes. Notando sua aflição disse que não havia nenhum problema porque a mulher não tinha coração e era dura de roer porque é uma mulher de pedra. Ela desceu comigo até a praia e ao identificar a pedra da Maria Mococa a começou a rir”.

Passeio pela Comunidade do Mauari

Depois de um bom banho no balneário e garantir os peixes para a ceia de Natal, acompanhamos o professor no seu périplo pela comunidade onde conhecemos seus membros mais antigos e a enorme plantação de acerolas. A tripulação se animou, momentaneamente, em participar das comemorações natalinas ou dos folguedos pagãos, mas reconheceram que isso não seria possível tendo em vista de que teríamos de partir às cinco da manhã.

Partida para Itacoatiara

(25 de dezembro de 2010)

Quando desci, às cinco horas, para o convés inferior, a tripulação já estava a postos, fiz um rápido lanche e colocamos o caiaque n’água. Ao contrário dos demais dias, o vento de proa e o banzeiro prejudicaram, durante toda a jornada, minha progressão. Havíamos decidido manter a rota pela margem esquerda do Amazonas percorrendo o Paraná da Trindade (Cumaru) ao norte da Ilha do mesmo nome que desvia as águas do Madeira pela margem direita do Amazonas ao longo da Costa do Arapará. A opção tinha a vantagem de ser mais curta embora mais lenta. Continuei a navegação sempre enfrentando o vento de proa e ondas que alcançavam meio metro de altura, nada que prejudicasse a estabilidade do formidável Cabo Horn (caiaque). Por volta das 7h30, logo na entrada do Paraná Cumaru, depois de navegar 18 km, por quase duas horas, avistei uma interessante ponte de ferro em arco sobre o Igarapé Nossa das Graças, aproveitei para fazer uma parada para descansar e fotografá-la. Hidratei-me comi uma banana e uma maçã e voltei para a água. Naveguei para o talvegue do Paraná. Os ventos continuavam prejudicando o deslocamento, apontei a proa diretamente para a Ilha Benta, ia fazer uma parada na face norte de suas areias. Aportei na Ilha Benta, às 9h20, depois de navegar 16 km, observei o Piquiatuba estacionado a 3 km a jusante da foz do Rio Urubu realizei meus procedimentos de rotina e retornei para o rio para meu lance final.

Notifiquei à equipe de apoio a respeito de minha rota, enchi o cantil com refrigerante e parti. Logo que adentrei nas águas oriundas do Rio Madeira encontrei troncos arrastados pela correnteza deste formidável afluente da margem direita do Amazonas. Até então eu não havia encontrado nas águas do Amazonas vestígios desse material já que o Solimões, nesta época, não tinha correnteza suficiente para arrastar os troncos encalhados nas margens ou areais do seu leito. Itacoatiara era perfeitamente visível a mais de 20 km de distância, piquei a voga, mas não adiantou muito, a velocidade dos ventos e a altura das ondas aumentaram de volume. Aportei no Piquiatuba às 12h12 depois de navegar aproximadamente 70 km. Estabeleci os contatos necessários com o pessoal de terra e permaneci a bordo até a tarde de 26 colocando em dia o material colhido ao longo do caminho.

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA); Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS); Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB); Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS); Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional.

Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br

E–mail: hiramrs@terra.com.br

2 comentários:

Juma Durski disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Juma Durski disse...

Muito interessante e emotiva sua postagem amigo Pedro!