quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

DESAFIANDO O RIO-MAR – ITACOATIARA

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Hiram Reis e Silva, Itacoatiara, AM

“(...) chorou o último a aleivosia daqueles Tupuias no fatal incêndio de trezentas Aldeias, depois da Mortandade de setecentos homens dos mais valorosos da suas nações, e o cativeiro de quatrocentos (...)”.

(Bernardo Pereira Berredo)

Do dia 27 de dezembro a 1º de janeiro, permanecemos em Itacoatiara; neste intervalo subimos o Rio na voadeira do 2º GptE até as proximidades da Ilha Benta, tentando acessar o Rio Urubu pela sua foz, mas, em virtude da seca, não foi possível. O Urubu trazia-me à lembrança o massacre que se sucedeu à missão de “resgate”, comandada pelo Sargento-Mor Antônio Arnau Vilela, em 1665, relatado pela pena magistral de Berredo. Em virtude da gripe forte e do movimento intenso do barulhento porto durante toda a noite, não consegui dormir e fui forçado a procurar um pequeno hotel nas proximidades para poder pernoitar e descansar. No dia 28 de manhã, recebi, no Hotel Rio Amazonas, a visita do Tenente João Batista dos Santos Pinheiro.Tratamos de temas relativos à Amazônia e ganhei dele um CD com uma palestra sua sobre a cidade de Itacoatiara. O Coronel Teixeira e companhia chegaram por volta do meio-dia. Depois de almoçarmos a bordo, recebemos a visita do senhor José Holanda que, gentilmente, convidou-nos para conhecer sua propriedade no dia seguinte. No dia 29, tomamos o café da manhã com o simpático prefeito Antônio Peixoto que, com uma fluência impressionante, discorreu sobre sua militância política junto aos trabalhadores rurais até ocupar o cargo de Prefeito de Itacoatiara; à tarde, visitamos a fazenda de Búfalos do senhor José Holanda na foz do Rio Madeira. No dia 30 fomos até à Fazenda Imperial do senhor Alcides Weiller, esposo da senhora Lena e proprietário do Restaurante Panorama, em cuja vista maravilhosa avista-se um pequeno lago que margeia o Rio Urubu. Os búfalos pastavam indolentemente mergulhados até o pescoço e arrancavam grandes porções de capim que flutuava na altura de suas mandíbulas.

Prefeito Antônio Peixoto

O Prefeito relatou, com detalhes, a perfuração de poços em Porto do Mauari - nossa última parada antes de Itacoatiara. “Quando deu na pedra, e como lá era várzea, a camada de pedra estava a 4 metros de profundidade aí o que eu fazia, só eu e as duas mulheres, arriava a vara de ferro e batia pá, pá, pá. Quando eu percebia que já tinha uma quantidade de pedras quebradas, tirava a vara para fora, pegava um bolão daquela tabatinga, jogava lá dentro e arriava a broca em cima e aí eu ficava como se estivesse arrumando uma namorada, só caqueando; quando aquela tabatinga embolava aquelas pedras todinhas eu puxava; às vezes a gente jogava outro bolinho só para saber se ainda tinha alguma coisa. Quatro horas de serviço, o pior não é nada, é você quebrar o diâmetro de uma pedra para a broca, depois descer bem porque pode quebrar de ponta; mesmo assim a gente conseguiu cavar o poço artesiano. O poço que ele (Beche) toma água hoje fui eu e a Bela quem perfurou, em 1998”.

José Holanda

Descendente de cearenses que se estabeleceram nas proximidades de sua atual propriedade, possui a determinação e a vontade férrea dos sertanejos cuja têmpera foi forjada no sol causticante da caatinga. Com treze filhos e mais de 30 netos, Holanda encanta a todos com sua fala mansa e contagiante e a riqueza ímpar de suas experiências em suas mais de sete décadas de vida na região. Alfabetizado tardiamente pelo antigo MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização), recuperou o tempo perdido lendo autores consagrados, dentre eles Ernest Hemingway. O deslocamento até a fazenda de Holanda, na foz do rio Madeira, foi realizado numa lancha rápida por ele mesmo projetada, com motor Suzuki de 300hp.

Holanda comentou que o abigeato é comum na região e que em determinada ocasião um comerciante local, seu vizinho e proprietário de um flutuante, surrupiou-lhe seis cabeças de gado. Conhecendo o responsável pela autoria do roubo, ele se dirigiu, com a tranquilidade que lhe é peculiar, ao estabelecimento comercial do mesmo e fez uma compra considerável de combustível e de gêneros bem superior ao preço dos seis bois levados pelo inescrupuloso mercador. Determinou que a embarcação carregada se afastasse e ficou com uma lancha rápida para lhe facilitar uma emergencial evacuação. Chamou o meliante para uma mesa e disse que precisava conversar com ele. Olhando fixamente nos olhos do ladrão disse que o pagamento do material que ele havia acabado de adquirir deveria ser abatido do preço dos bois roubados. Quando o malandro se esticou para pegar uma arma, Holanda mostrou-lhe a Calibre 12 engatilhada e destravada e saiu sem ser incomodado pelo covarde trapaceiro.

Histórico

“Os registros de povoamento na região datam de 1655, quando o Padre Antonio Vieira cria a Missão dos Aroaquis na Ilha de Aibi, nas proximidades da boca do Lago do Arauató. A Missão, porém, não progrediu em razão da investida dos índios Muras. Por cinco vezes o povoado mudou de lugar. O desconhecimento sobre a região não os deixava observar que estavam deslocando-se dentro da grande área dominada pelos índios Muras, que compreendia praticamente toda a calha do Rio Madeira. Razão que os fez mudar para a foz do Rio Abacaxis. O povoado desta vez instalou-se em terra firme e as investiduras dos Muras eram menores. Com o notório progresso do povoado, o Capitão-General Governador da Amazônia, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do Marquês de Pombal, em visita ao lugar, resolveu elevar o lugar para categoria de Vila. Os moradores, contudo, já tinham previamente escolhido um novo lugar em razão da insalubridade e dos constantes ataques dos índios. Desta vez, trocaram a calha do Madeira pela margem esquerda do Rio Amazonas - mais precisamente no Sítio Itacoatiara. Todavia, a mudança só foi efetivada em 19 de abril de 1758. Mendonça Furtado, após verificar o lugar “in loco”, deixou o Sítio Itacoatiara e partiu para Barcelos para empossar o coronel Joaquim de Mello e Povoas como Governador da Capitania de São José do Rio Negro. Em 01 de janeiro de 1759, acontece, de fato e de direito, a instalação da Vila, com a denominação portuguesa de Serpa, que estaria sob a proteção de Nossa Senhora do Rosário de Serpa, cuja imagem foi trazida de Portugal para a Vila recém-formada. Foi a 3ª Vila instalada do Amazonas, pela estratégica posição geográfica. Exercia considerável influência na região, ficando, inclusive, o Lugar da Barra, atual Manaus, sob a sua dependência política. A Comarca de Serpa compreendia, aproximadamente, metade da área do Estado. Em 1840, Serpa foi duramente atingida pela revolução dos cabanos e, finalmente, em 25 de abril de 1874, com base no projeto n° 283, de autoria do Deputado Damaso de Souza Barriga, a antiga Vila de Serpa é elevada a categoria de cidade, resgatando a origem indígena com a denominação Itacoatiara, fazendo uma alusão às pedras encontradas no Jauary (bairro da cidade que fica situado na margem do Rio Amazonas, onde encontram-se várias pedras com inscrições em baixo relevo, feitas pelos primitivos habitantes). Em 24 de agosto de 1932, na frente da cidade, aconteceu a célebre Batalha Naval envolvendo os navios Ingá e Baependí, dos legalistas da constitucionalista de São Paulo. Os navios Jaguaribe e Andirá estavam sob o comando dos rebeldes”. (SEGOV-AM)

João Daniel (1757)

Nas margens do Amazonas há uma paragem, entre Pauxis (Óbidos) e a foz do Madeira, chamada na língua dos índios naturais ‘Ita cotiará’, que quer dizer ‘pedra pintada ou debuxada’ (esboço, desenho); vem-lhe o nome de várias figuras, e pinturas delineadas naquelas pedras; e pouco mais acima estão estampadas em outras pedras algumas pegadas de gente. O que suposto, discorrem alguns, que tanto uns como os outros serão sinais misteriosos, como as pegadas esculpidas no pavimento do altar, que dissemos no Rio Xingu; porque não parecem feitas por engenho da arte. Outros, porém, concedendo a causal, dizem que estas podem ser por causa natural, porque pode ser que passando por ali algum curioso índio, quando ainda aquelas pedras estivessem barro brando, ‘debuxaria’ (desenharia) por divertimento as tais pinturas e figuras; e pela mesma razão de brandas, passando por cima das outras, deixaria estampados nelas os pés, e ao depois fazendo-se pelo decurso dos tempos aqueles barros petrificados, conservam as mesmas figuras. Parece provável este discurso, aos que discorrem que todas as pedras se fizeram, e constiparam com os tempos, de que há muitas provas, além de outras partes, no mesmo Amazonas, como advertiremos adiante”. (DANIEL)

Antônio Ladislau Monteiro Baena (1839)

Há ali pedras alvas, pretas, verdes, todas lisas; pedra amarela, chamada Itacoan, que serve de alisar as panelas feitas a mão; e pedras pintadas de várias figuras. Destas últimas também na ribeira da Vila de Serpa; e foram elas o motivo de dar-se a esta povoação em seu primórdio o nome de Itacoatiara. (...)

Serpa: Vila criada pelo Governador do Rio Negro Joaquim de Mello e Povoas em 1759, e plantada sobre uma planície larga e sobranceira ao Rio de uma Ilha jacente na margem esquerda do Amazonas, que leva a ribeira desta Vila 3 léguas abaixo do Aibú, quinto furo de Saracá, ou 48 léguas acima da foz do Nhamundá confim oriental da Comarca no mesmo Amazonas. Posição em latitude e longitude o paralelo austral 3°3’. Cruzado pelo meridiano 319°9’. Esta Vila foi uma aldeia chamada dos Abacaxis: e outros também a denominaram Itacoatiara, porque a sua ribeira se acha semeada de pedras pintadas e formadas variamente. (...) Os moradores fazem venda de peixe seco ou salmoeirado, de café, guaraná, tabaco, manteiga de peixe-boi, e de tartarugas, de que há muita cópia, e são corpulentas; e vão à espessura as suas produções mais cursáveis no comércio. As terras são aptas para café e tabaco, e também para quadrúpedes do gênero dos ruminantes. O Porto da Vila é profundo mesmo na proximidade da terra: e tem na sua frente uma correnteza voraginosa”. (BAENA)

Henry Walter Bates (1849)

Permanecemos cinco dias em Serpa. Algumas das cerimônias realizadas no Natal não deixavam de ser interessantes, tanto mais quanto eram, com ligeiras modificações, as mesmas que os missionários jesuítas tinham ensinado havia mais de um século às tribos indígenas induzidas por eles a se estabelecerem ali. Pela manhã, todas as senhoras e moças do lugar, trajando blusas de gaze branca e vistosas saias de chita estampada, seguiram em procissão até a igreja, depois de darem uma volta pela Cidade a fim de chamar os vários ‘mordomos’ cuja função era ajudar o ‘juiz’ da festa. Cada um desses ‘mordomos’ segurava uma comprida vara branca, enfeitada de fitas coloridas; inúmeras crianças participavam também da procissão, cobertas de grotescos enfeites. Três índias velhas iam na frente, levando o ‘sairé’, que consiste num trançado de cipó semicircular, recoberto de um tecido de algodão e incrustado de pedaços de espelho e enfeites semelhantes.Elas agitavam essa peça para cima e para baixo, cantando ininterruptamente um hino monótono e plangente na língua tupi e se voltando de vez em quando para os que vinham atrás, os quais nesses momentos interrompiam a sua marcha. Fui informado de que o ‘sairé’ não passava de um engodo de que se tinham servido os jesuítas para levarem os selvagens até a igreja, pois estes se sentiam atraídos pelos espelhos e os seguiam a qualquer parte, encantados por verem suas próprias imagens refletidas ‘magicamente’ neles. À noite o povo se entregou a alegres folguedos por toda a Cidade. Os negros, devotos de um santo que tinha a sua cor - São Benedito - fizeram sua festa à parte e passaram a noite toda cantando e dançando ao compasso de um tambor comprido chamado ‘gambá’ e do ‘caraxá’. O tambor era feito com um pedaço de tronco oco, fechado numa das extremidades por um couro esticado; era colocado horizontalmente no chão, e o tocador montava ele, percutindo-o com o nós dos dedos. O ‘caraxá’ era feito de um pedaço de bambu cheio de entalhes, os quais produziam um som áspero e matraqueante quando se passava uma vareta ao longo deles. Nada se comparava, em monotonia, a esses sons, cantos e danças, que continuaram pela noite a dentro com inexaurível vigor. Os índios não executaram nenhuma dança, já que os brancos e mamelucos tinham monopolizado todas as morenas bonitas do local, atraindo-as para seus bailes, e as índias mais velhas preferiam assistir à festa ao invés de tomar parte dela. Os maridos de algumas delas juntaram-se às danças dos negros, e dentro em pouco estavam bêbados. Era divertido observar como se tornavam loquazes, sob influência do álcool, os taciturnos índios. Os negros e os índios justificavam as suas bebedeiras dizendo que os brancos também se estavam embriagando do outro lado da Cidade, o que era pura verdade”. (BATES)

Sairé ou Çairé: manifestação folclórica e religiosa na qual os participantes, durante três dias, cantam, dançam e participam de rituais religiosos e profanos, resultantes da miscigenação cultural entre índios e portugueses. A festa teria sido criada pelos índios para homenagear os portugueses que colonizaram o médio e o baixo Amazonas. Sua origem está no fato de que os colonizadores que aportavam em nossas terras exibiam seus escudos. Os índios então faziam o seu ‘Çairé’, como foi chamado o símbolo que é carregado nas procissões, imitando o escudo usado pelos portugueses. O escudo dos índios era feito de cipó recoberto de algodão e outros adornos, enfeitado de tiras de várias cores e rosetas de pano colorido. Como os símbolos dos portugueses possuíam cruzes, o ‘Çairé’ também possui, só que neste, as cruzes representam o mistério da Santíssima Trindade. O caráter religioso também é atribuído aos frades jesuítas, que teriam criado o símbolo para ajudar na catequese dos indígenas. Os preparativos para o ‘Çairé’ começam com a procura pelos troncos que servirão de mastros, na abertura da festa. Os troncos escolhidos são enfeitados com folhas, flores e frutos, levantados em competição acirrada entre homens e mulheres para ver qual grupo consegue levantar o mastro em primeiro lugar’.

Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA); Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS); Acadêmico da Academia de História Militar Terrestre do Brasil (AHIMTB); Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS); Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional.

Site: http://www.amazoniaenossaselva.com.br

E–mail: hiramrs@terra.com.br

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