terça-feira, 3 de julho de 2012

JORGE, SEMPRE A SERVIR: SIMPLICIDADE GRANDIOSA

“O ideal é enxergar com os próprios olhos. Ver com olhos alheios é preferível, a ser cego”-(Gudé).
Por José Eugênio Maciel
“É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar antes: mais nada”.

É TALVEZ O ÚLTIMO DIA DA MINHA VIDA – Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

           Existem pessoas que fazem das suas próprias vidas um espetáculo tão fantástico que elas possuem sempre uma plateia ávida em assistir e para o qual se encantam. As apresentações se repetem no cotidiano, ao mesmo tempo novas peças entram em cartaz num mesclar de alegria e tristeza, uma vez ser inevitável os obstáculos inerentes  ao viver.
         A última vez em cena é o adeus, anunciado, previsto ou não, pode ser pressentido, ainda que não se deseje aceitá-lo. As cortinas hão de se abrir e fechar, sempre. Entretanto, nesse espaço de tempo cronológico têm os que não voltarão jamais e existem aqueles que acenam ao público.          Eternamente não haverá outro retorno ao palco dessa vida.
         No descortinar de agora o seo Jorge Fernandes de Moraes, finda um belíssimo espetáculo que encenou por 85 anos. Sorria para vida quando tudo faria crer em determinados momentos só existirem espaço e motivo para a melancolia. Sofria também, era solidário, tinha sempre uma palavra amiga e mão estendida. Esperançoso, sabia que o ânimo era mais que estímulo ou necessidade, sobretudo foi o sonhar como alavanca de agir, convicto que poderia bastar “um dia após o outro”.
         As cortinas da vida foram também  as portas do Bar Aparecida, nele a metade da vida do Jorge, sempre a servir, pronta, elegante e competentemente, quando as ruas próximas de centro somente elas tinham asfalto, logo o barro vinha até ali trazido pelos automóveis rústicos de vias vicinais. Aliás, o Bar Aparecida não faz parte da história de Campo Mourão apenas por ser um dos mais antigos, mas o modo como ali se constituía um ambiente democrático de todas as classes sociais. Prosas e encontros a descortinar a vida de uma cidade a florescer como planta outrora promessa de ser tenra e dar frutos. O Aparecida era o cenário livre para todos os goles.
         As portas do bar se fecharam, passando a fazer parte da memória de Campo Mourão. São as cortinas que fecham e abrem precisamente agora, não mais a aparecer o personagem ilustre da querida família que deixa o personagem dos seus numerosos amigos e da cidade. Seo Jorge sai de cena, é o destino a pregar uma peça, mesmo que a imortalidade da alma boa se caracterize na luz que prossegue a brilhar por intermédio dos seus incontáveis exemplos, legados de uma pessoa decente, sólido caráter, integridade moral, tudo transmitido sem arroubos e sim no cotidiano de uma envolvente e sábia simplicidade, também de bondade, afeto, respeito.
         Ainda que no cenário do luto, é possível o aplauso em reconhecimento a dignidade de uma pessoa merecedora das palmas.

Um comentário:

João Marcos Durski disse...

Homem íntegro, amigo, humilde e honesto! Que Deus o tenha!!!