João Pombo Barile
O poeta Ferreira Gullar, anunciado na semana passada como vencedor do Prêmio Camões 2010, em Belo Horizonte como convidado do projeto Terças Poéticas, nos jardins internos do Palácio das Artes, o autor de "Poema Sujo" conversou com o público e fez uma homenagem ao poeta Augusto dos Anjos lendo alguns dos seu versos. Além disso, mostrou alguns poemas do seu novo livro, "Em Alguma Parte Alguma".
Do Rio de Janeiro, por telefone, Gullar conversou com o Magazine. Na entrevista, dentre outros assuntos, ele falou do novo livro de poesias, de Augusto dos Anjos, de poesia e de política.
Você acaba de ganhar o prêmio Camões. Esperava ser premiado? Claro que não.
Mesmo com uma obra tão importante? Escuta, cara: eu não estou dizendo que eu não mereceria... Isso é outra coisa. É porque eu não penso em prêmio. Não é uma coisa que faça parte de minhas preocupações. É evidente que eu fiquei muito contente de ter ganhado. Eu acho que esse prêmio tem uma alta significação. Fiquei muito feliz. Agora, eu não pensava em ganhar porque eu não sou muito otimista quanto a isso, não (risos). Eu já ganhei prêmios importantes, o Machado de Assis da ABL por exemplo. Mas não penso nisso.
Para você é importante ser reconhecido por sua obra? Claro. Para todo mundo é. Para que eu escrevo? Primeiro, por minha necessidade, para me satisfazer, pelo prazer que eu tenho de escrever. Fazer um poema é uma alegria para mim. Pena que raramente aconteça. Quando acontece é uma alegria. Além disso você escreve para o outro. Não é que eu fique pensando "como é que eu vou agradar?". Nenhum poeta pensa isso. Mas é legal você saber que, sem ter pensado, o outro se comove com o que você escreveu. O outro reconhece aquilo, o que o tocou e passou a fazer parte de sua vida. Isso que é importante. Então o reconhecimento, quando vem, inclusive da parte de outros escritores que são pessoas renomadas e qualificadas, é importante.
No evento de hoje em Belo Horizonte você vai homenagear Augusto dos Anjos. Ele é um poeta importante para você? No Terças Poéticas cada um homenageia um poeta. E eu vou homenagear o Augusto dos Anjos. Tenho um estudo que escrevi sobre o Augusto dos Anjos na época que eu estava no exílio (trata-se de "Augusto dos Anjos ou Vida e Morte Nordestina"). No livro, eu procuro mostrar a importância dele. Procuro mostrar nesse ensaio que ele é um dos nossos primeiros poetas modernos. Ele já tem modernidade. Ele não é inteiramente um poeta do modernismo, não é isso, mas a poesia dele já tem uma série de elementos que são modernos.
Quando você escreveu esse livro você estava na Argentina? É. Eu, na verdade, comecei a escrever o livro no Peru e terminei na Argentina, a pedido até do Darcy Ribeiro. Foi ele que me meteu na cabeça que eu deveria escrever um livro sobre o Augusto dos Anjos.
Como é que foi essa história? Um dia eu estava na casa do Darcy em Lima e começamos a conversar sobre poesia. E eu disse para ele: "Um dos meus poetas prediletos é o Augusto dos Anjos". E aí o Darcy falou: "Ah, que Augusto dos Anjos que nada. Aquele negócio de ‘Escarra nessa boca que te beija’". E eu falei: "Oh Darcy. Augusto não escreveu só isso... Eu vou te dizer uns poemas que eu sei de cor". E disparei. Aí ele se entusiasmou: "Cara, eu nunca imaginei que o Augusto fosse um poeta tão bom". Daí a uma semana, o editor Fernando Gasparian chegou a Lima para tratar de negócios. E nós fomos almoçar com ele. No meio do almoço, o Darcy falou: "Olha, o Gullar está escrevendo um ensaio sobre o Augusto dos Anjos e queria que você publicasse, Fernando". Ele topou na hora. E o Darcy então falou: "Mas tem que adiantar um dinheiro". Ele então me deu US$ 100, para um livro que eu nem tinha escrito.
E US$ 100 era muito ou pouco para época? Para mim, que estava vivendo com uma mão na frente e a outra atrás, era muito (risos). O Darcy fez de propósito. Ele sabia que a minha situação era precária. Eu tive então que escrever o livro. Quando cheguei a Buenos Aires, pedi para a minha mulher que me mandasse os livros necessários para escrever o ensaio.
Na segunda parte da entrevista, Ferreira Gullar fala do novo livro e do momento político brasileiro. O poeta faz críticas ao presidente Lula e ao PT.
No sarau de hoje você vai declamar algum poema do seu livro novo? Vou. Mas ainda não sei qual.
Quando vai sair seu novo livro de poemas, “Em Alguma Parte Alguma”? Vai sair logo depois do meu aniversário, que é em 10 de setembro [Gullar fará 80 anos). Mas a data certa ainda não sei.
Você continua não andando de avião? Não. Eu não ando mais de avião. Eu tenho estresse. O estresse do aeroporto, da viagem... Atrasa tudo. Andar de avião é um sofrimento. A coisa mais rara é você chegar e embarcar na hora. É avião demais voando, e os aeroportos não comportam essa quantidade.
Você vai até Lisboa para receber o Camões? Não sei. Não quero nem pensar nisso. Lá eu não vou não. Pegar avião para cruzar o Atlântico, ficou louco?
Você tem escrito ensaios? Não. A minha ocupação permanente são as crônicas que faço para a “Folha de S. Paulo”. Tenho um livro chamado “Relâmpagos”, em que reuni textos poéticos sobre arte. Agora, estou preparando “Relâmpagos 2”, selecionando artigos que escrevi para algumas exposições, e textos que estou escrevendo. Devagar, sem pressa. Um livro que está me dando muito prazer de escrever.
Neste ano temos eleição presidencial. Você está animado? Ah, vai ser uma batalha. Os dois candidatos estão empatados. Espero que o Serra ganhe. Será um absurdo se o Lula, que empurrou a Dilma garganta adentro do PT, vá empurrar agora garganta adentro do país só pela vontade exclusiva dele. Acho que nem a Dilma é a favor disso.
2 comentários:
Por muito pesquisar, por juntar informação sobre o marxismo e suas variações, sou radicalmente contra o coletivismo, o ateísmo e as infiltrações deliberadas que conduziram parte das Igrejas Cristãs, como a CNBB, a adotar a pregação da Teologia da Libertação.
Ferreira Goulart sempre foi um homem de esquerda. Mas o parebenizo agora, pela coragem de ser verdadeiro em relação ao Sr. Lula da Silva e seu partido. Não são somente "um perigo para a democracia". Já fizeram um estrago dificilmente possível de corrigir em várias gerações: ideologizaram a educação em todos os níveis. Institucionalizaram o analfabetismo funcional.
Bravo Gullar,
Eu não sou igual a ninguém e, sabedora desse fato, vivo com total tolerância ao diferente de mim, que são todos.
Apenas temos que saber, que eu sou um, que faço parte de vc, que é um...
O comunismo nunca vingará, será sempre disforme e violento nos tirando a liberdade de sermos únicos.
Tentando aprisionar nosso corpo e, depois, as nossas mentes.
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